Claudio Daniel: O amor é uma língua estrangeira (2026)

Claudio Daniel é poeta, tradutor, romancista e ensaísta paulistano, formado em Jornalismo e doutor em Literatura Portuguesa pela USP, com pós-doutorado em Teoria Literária pela UFMG. Atuou como diretor adjunto da Casa das Rosas, curador de Literatura do Centro Cultural São Paulo e colunista da revista CULT, além de editar revistas e jornais dedicados à poesia e à crítica literária. Autor de obra traduzida para diversos idiomas, recebeu prêmios e bolsas de instituições como CULT, Itaú Cultural e Funarte, participou de importantes festivais e antologias nacionais e internacionais e organizou eventos literários no Brasil e no exterior. Atualmente, atua como professor de criação poética, mantendo também projetos voltados à difusão da literatura e da poesia contemporânea.



Os poemas a seguir foram selecionados do livro O amor é uma língua estrangeira (Primata, 2026), que pode ser comprado neste link.


ESCARAVELHOS


escuro
é o caminho
onde
nos encantamos
fragmentados
em cenários
evasivos
acreditando
em impossibilidades
lapidamos escamas
de serpente albina
seara difratada
onde todo amor
coagula.
somos lunares
aquosos
imprecisos;
ocorre que
a música
da pele
incita ao jogo
de escaravelhos
à pureza
do ácido
e da cicatriz


KITAGAWA UTTAMARO (1753-1806)


moça linda em vestes
verde-jade
verde-água
verde-mel;
lábios rubros rubiáceos
como um sol
que se enamora
por outro sol.
aroma azul-da-prússia
suscetível de encontro
de pele em pele
desejada;
na casa japonesa
o dourado mistura-se
ao verde-azul
verde-malaquita
verde-turmalina
das escamas dos peixes.
ela passeia entre pinheiros
de galhos retorcidos
e seus olhos refletem
um invisível arco-íris;
ela move os olhos-

de-pássaro-e-gato
furtiva, sub-reptícia
como personagem de teatro nô
e meu coração palpita
em rima com saliva
cobiça, atiça, treliça
delícia, insubmissa.
vejo as katanás
dos velhos samurais;
vejo e não vejo pois só desejo
habitar a sua boca, sua voz.


HERBERTO HELDER


Cores desentranhadas a seco.
Mandíbulas.
Ombros, pés.
Ela está deitada numa hora do relógio.
Seios, cabelos.
Uma peça para cravo de Bach.
Dentes, braços.
Porque tudo é matemática e loucura
como a música e o amor.
Boca, joelhos.
Cegueira é ver-se no espelho.
É não ver o sentido.
Sei que existe a pedra, o gato, o ruído.
Sei que existe a casa, o peixe, a bomba.
E busco a mulher-palavra.
Mulher-pássaro.
Mulher-sentido.
Que eu possa amar
como quem nomeia uma estrela
recém-descoberta.
No fundo da garganta
há alguém que canta e encanta.
Há talvez uma tesoura
que corta o passado em mil pedaços.
Há talvez uma rosa-peixe
como ideia-fixa.

Há uma bússola-vulva que me leva
para fora de mim
e para dentro de mim
apontando não sentido ou sentidos
mas a grama o lago a pétala
o estrondo o rio a montanha
a águia a palavra o apocalipse.


Primata