Muitos anos já ficaram para trás desde o rascunho inicial e da escrita dos primeiros versos que viriam a se tornar uma trilogia inesperada.
Sim, tudo começou de maneira casual em janeiro de 2016, por conta de uma proposta de criação literária do Palavraria, um coletivo de escritores e poetas que se reunia quinzenalmente na Casa das Rosas em São Paulo.
A proposta era a seguinte: sortear duas cartas de um baralho de tarô e, a partir destas cartas, escrever dois contos ou dois poemas que fizessem referência direta aos respectivos arcanos sorteados. Pois bem, os arcanos que eu sorteei foram o Imperador e o Julgamento.
Maria Eduarda Lima cresceu na praia do Janga, em Pernambuco. É jornalista, escritora e psicanalista. Mora em São Paulo, onde aprendeu que as mudanças cortam e costuram. Autora de “Cutícula” (2022), da plaquete “La Ursa: a história de um fim em cinco poemas” (2023) e “carreto” (2025).
Os poemas a seguir foram selecionados do livro “carreto” (2025), lançado pela Editora Primata e disponível para aquisição neste link.
SÓBRIA
o dia que eu parei de beber tinha trinta e um anos e oito meses
não o dia só tinha vinte e quatro horas
eu é que já tinha três décadas e setecentos e quarenta dias
acontece simplesmente acontece de não entrar mais nada goela abaixo
não dava certo com água álcool e suco
não passava sprite café ou absinto
eu parei de beber e comecei a engolir seco
até saliva me enojava a única cachoeira que ainda me dava apetite era você
Christian Dancini é um poeta nascido e residente de São Roque, São Paulo. Aos 22 anos, publicou “Reminiscências”, com prefácio de Renato Gonda e Eduardo Agni, e ilustração de Emerson Santana. Lançou também “Pleroma” e “Dialeto das Nuvens”, semifinalista do prêmio Oceanos 2024.
Os poemas a seguir foram selecionados do livro “Suspensos no ar em silêncio por um instante”, seu lançamento mais recente, editado pela Primata em 2025 e disponível para compra aqui.
SUSPENSOS NO AR EM SILÊNCIO POR UM INSTANTE
Eu olho para as fotos como que procurando o destino. Não sei exatamente onde eu me perdi. Não sei exatamente onde a encontrei. Não sei sobre o pavio aceso do tempo que nos esmaga como insetos. Eu olho nos teus olhos e te procuro. Em todos os olhares eu te perco. Porém, eu prometo, que na noite mais escura, do céu mais vazio, das estrelas mais fustigantes, fugidias, eu estarei segurando a tua mão, suspenso no ar, em silêncio, por um instante. Eu procuro tua mão à noite, ao amanhecer e ao entardecer. Em todas as cordas me emaranho, enrosco o pescoço na forca. Entretanto, te perco, nas lâminas de aço pungentes, no segredo que o céu não soube guardar. Eu escrevo poesia para alcançar o teu nome, que já diz tudo. Eu olho para as fotos como que procurando a ti, mas encontro as tuas últimas palavras cravadas em seda: “tu jamais alcançarás a lua se não saltar o precipício”.
Luís Perdiz nasceu em Campinas (SP). Escritor, compositor e editor, coordena a “Editora Primata”, com foco em literatura brasileira contemporânea. Atua também na produção e apresentação de eventos de poesia e experimentações musicais, como o “Festival Primata” e o “Sinais de Saturno”.
Seu livro “Desejo de terra” foi contemplado com a bolsa de Criação e Publicação Literária ProACSP. Com prefácios de Jorge Mautner e Claudio Willer, a obra retoma suas principais influências: o modernismo brasileiro, a tropicália, o surrealismo e a geração beat. Publicou também a plaquete “Você me enche de areia”, que reúne seus primeiros poemas.
Os poemas a seguir foram selecionados da plaquete “Você me enche de areia” (Editora Primata, 2023), disponível para aquisição neste link.
PLAYGROUND
o que mais me revelava naquele playground vazio era o silêncio igual ao meu
infância fantasia atravessada merthiolates colos contrastes amigos imaginários todos eles filhos únicos
ensimesmado pressentia sons de macondo
outras partes longas indefinidas longe do baile de minotauros
Denis Scaramussa Pereira é de Itarana/ES e foi aluno do Curso Livre de Preparação de Escritores – CLIPE modalidade Poesia, turma 2021. É autor de “Na Garupa do Bozo: Poemário de uma Via Decadente”, 2021, pela Desconcertos Editora, finalista do I Prêmio Candango de Literatura, “Ode ao Bozo e Outras Cantigas”, 2022, pela Toma Aí Um Poema – TAUP, “Ai de Mim, que Sou Romântica”, 2024, também pela TAUP e “Chupacu: o Mito Brasileiro”, 2024, pela Editora Primata.
Os poemas a seguir foram selecionados do livro “Chupacu: o Mito Brasileiro” (Primata, 2024), disponível para compra neste link.
CHUPACU EM SONETO
No agreste nordestino surge mito brasileiro criatura mete medo língua brasa, bafo quente
O herói de nossa gente desamarra a retranca faz sorrir qualquer carranca copulando em sua anca
É o rei da barafunda já proteja sua bunda pois a noite é um perigo
No luar endiabrado rasga a mata o seu cajado lambe os beiços no melaço