Millôr Fernandes foi um dos mais versáteis e influentes intelectuais brasileiros do século XX, destacando-se como escritor, jornalista, dramaturgo, cartunista e tradutor. Nascido no Rio de Janeiro em 1923, construiu uma carreira marcada pelo humor inteligente, pela crítica mordaz e pela habilidade de transitar entre diferentes linguagens, do texto literário à charge. Colaborou com importantes veículos como a revista “O Cruzeiro” e foi um dos fundadores de “O Pasquim”, publicação emblemática na resistência cultural durante a ditadura militar no Brasil. Com um estilo irônico e profundamente observador, Millôr deixou uma obra vasta que questiona costumes, poder e a própria linguagem, consolidando-se como uma figura central do pensamento crítico e do humor no país até sua morte, em 2012.

Os poemas a seguir foram selecionados do livro “Hai-kais” (L&PM, 1997).

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a lua.
Esnobar
É exigir café fervendo
E deixar esfriar
No aeroporto, puxa-sacos
Se despedem
De velhacos.
Usucapião
É contemplar as nuvens
Do próprio chão.
Passeio aflito;
Tantos amigos
Já granitos.
Probleminhas terrenos:
Quem vive mais
Morre menos?
Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.
O velho coelho
Só se reproduz
No espelho.
Pássaro posado
No espantalho
Aposentado.
Não questione
Por que o caracol
Carrega um trombone.
