Anna Vis: Máquina orgânica (2019)

Anna Vis é poeta, astróloga, compositora e cantora. Publica seus trabalhos no site Boca de Leão e é autora do livro Máquina orgânica (Editora Primata, 2019).



Os poemas a seguir foram selecionados do livro Máquina orgânica (Editora Primata, 2019), disponível para compra neste endereço.



ELEITO LEITOR


Se estamos –
nós íntimos – sozinhos
te abrindo,
exponho cartas
na nossa cara cansada
à cara oculta.

Tudo que não escolhi
saindo pelo seu corpo
lábio lexo
lendo lento

no limite nós.
Nos espera a morte.
Lhe amarro a língua pela lateral da minha.


.


por vezes o desejo de palavras absurdas para amarrar tramas emburacadas
tecer uma arte da desobediência vasta ter comos a disposição que
atravessem infinitos és o cosmos na espreita ativa animosidade viva tenha
atenção tensão vigília precisa retorcer a informação na sua própria mão
Olho vivo, faro fino! a poesia fica na casa das falas gastas castas na
manipulação das palavras precede e excede os contrários as polaridades
e nessa vida estamos no jogo do inverso é preciso sacar o peixe e o gato
capturar a mosca atrás da toca assistir pelos olhos das costas dançar em
pistas opostas

“Pois
pista de dança
quer dizer
Farmácia de Manipulação de Tropos Poéticos Sociedade Anônima
que existe e funciona,
como tudo na vida, inclusive o poeta,
seja dito de passagem,
para servir à poesia.
e a trilha vai por aí afora,
aliás…”


Waly Salomão – Pista de Dança



UM OLHO NAS GATAS


Uma senhora de costas
se despede e procura
a imagem de sua amiga
saindo pelo vagão.
Vi o vago da memória
e os bruscos buracos
abertos
por baixo da terra.
Os olhos de Clarice correm por túneis escuros,
com paradas, com retornos
variações repetidas,
esqueceremos onde estamos,
quem somos,
dando voltas nos bastidores
esperando a próxima notícia de morte.

Não haverá portas nesse caminho de toupeiras,
apenas escadas.



GABRIEL EM VERMELHO


corre no corredor.
A poesia de Hilda trama a visão
escorpiões a fiarem o muro, sim
como paredes altas
e o corpo longo
tecidos
em mosaico sanguíneo
manchas de vinho
as palavras inebriam
Lucius,
onde você estava
quando vinha do orquidário?
Verti vinte anos atrás
nessa conversa secreta:
‘não olha com as mãos’
Mudaram o tempo de lugar
mas reconheço ainda
o doce quente escorrendo
pras pombas da esquina.
Assistir aos trens
sem muro
como quando era menina.



Primata

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