Armando Freitas Filho: anos 1980

Armando Freitas Filho nasceu em 1940 no Rio de Janeiro e estreou em 1963 com Palavras, editado por conta própria com ajuda do amigo José Guilherme Merquior. Escritor compulsivo, publicou e continua a publicar uma vasta obra poética, marcada pela  ampla imaginação e musicalidade em seus versos singularmente controlados. Dada a extensão e qualidade de seus livros, resolvemos dividi-los em uma série de postagens. Confira a primeira, referente aos livros dos anos 1960 e 1970, aqui.

Para a publicação de hoje, selecionamos alguns dos nossos poemas preferidos de seus três livros lançados na década de 1980: Longa Vida (Nova Fronteira, 1982), 3×4 (Nova Fronteira, 1985) e De cor (Nova Fronteira, 1988).

 

 

 

poemas de Longa Vida (Nova Fronteira, 1982)

 

 


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Escrevo
             só
em último caso
ou como quem alcança
o último carro
como quem
                  por um triz
por um fio
                  não fica
no fim da linha
de uma estação sem flores
                        a ver navios.

 

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André Bonani: suceder (2016)

Escritor e ilustrador. Vive em São Paulo. Sua única regra é obedecer aos comandos da imaginação. Para isso, para manter essa fogueira acesa, se alimenta diariamente de poesia, da poesia das imagens, das palavras, da realidade, dos sonhos. Artes plásticas, literatura, cinema, teatro, música, fotografia, um café de tarde, uma madrugada insone, uma luz de outono, tudo entra no vagão da criatividade na hora de acelerar e soltar fumaça. Gosta de refletir sobre como cada processo subjetivo nos ajuda a construir e inventar significados para os fenômenos e experiências.

Mais do seu trabalho em: http://cargocollective.com/andrebonani


foto: Rodrigo Rodrigues

Os poemas e as colagens a seguir fazem parte da plaquete suceder (Editora Primata, 2016):

COCHILAR

lampejo dos que comigo não chegaram, dos que somente em mim caminho
adentro galgaram.
trafegam em bicicletas de algodão,
correndo macio,
são lenços em galáxias de nomes,
ganham forma,
são quase.

mas os olhos reabrem
e a tarde se refaz,
porcelana bege.

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Bruna Mitrano: não (2016)

Bruna Mitrano (1985) nasceu e vive na periferia do Rio de Janeiro. É escritora, desenhista e articuladora cultural. Em setembro de 2016, publicou seu primeiro livro, o Não, pela editora Patuá.
 
 
bruna mitrano
 
 

*
 
na estrada de terra
da cidade vazia
a criança preta empunha um pedaço de pau.
ela está nua e vê-se um corpo tão prematuro
quanto ruínas.
a boca intumescida da criança preta gutura
morte ao rei!
e na aridez inalcançável dos pés descalços
resiste
a criança tão criança e velha,
sozinha e livre –
o sino da igreja abandonada toca todo dia na hora errada.
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Yuri Pires

Yuri Pires nasceu em 1986, na cidade do Recife (PE), onde cursou História, na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), e viveu até 2011, mudando-se para São Paulo (SP), onde publicou seu primeiro romance, O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014), seu primeiro livro de contos, Fábrica de heróis (apenas em e-book, 2015), e seu primeiro livro de poemas, Artifício (Editora Intermeios, 2015).

 

yuri pires

 
 

UTOPIA DA PALAVRA II
 

Uma imagem é palavra,
conjunto de, composta por;
conceitos, ideias, erratas:
palavras – tijolos de compor.

Há as vazias, amorfas, insípidas,
que cabem em qualquer imagem;
há as pesadas, formes, mínimas,
cujo manuseio exige uniformidade.

Mas como toda ela, maleável,
um artífice pode encaixá-las
em qualquer uma identidade,
decompostas, desmontadas;

amor cabe em Julieta e Aurélia,
ódio cabe em Moisés e Valjean,
paixão cabe em Evita e Lucrécia,
e assim por diante e diante.

Se mais pesadas, menos largas,
mais restritas no que sabem,
menos lisas e dissimuladas.
Utopia: a palavra sem imagem.

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Laura Navarro

Laura Navarro nasceu em São Paulo em fevereiro de 2000. É fascinada pelos celtas, pelas bonecas russas e, principalmente, pela linguagem, que ela define como “exercício criativo, social e, sobretudo, corporal”. Em 2016, publicou o livro Clair de Lune, pela Editora Patuá.

 

laura navarro

 
 

MATRYOSHKA
 
No dia do meu aniversário
Tu me deste uma dessas bonecas
Que eram várias
Dentro de uma
Como mãe e filha
Como alma e corpo
E, como eu,
tu disseste.

Elas sorriam, elas choravam
ao mesmo tempo
E conforme elas iam ganhando vida
Eu ia apodrecendo
Quem diria,
Uma boneca animando
humanos
Como uma menina brincando
de barbie?

Você sabe, eu guardava
As pétalas das rosas
que eu você me dava
dentro delas
Como se fossem vasos

E eu as carrego comigo
Como uma mãe que carrega
suas filhas
A diferença é que
A mãe é a matrioska, não eu

Aliás, se eu tivesse uma filha
Queria que essa boneca
fosse a parteira
assim como eu
em todos os partos dela
E que o cordão umbilical de minha menina
Fosse guardado dentro dela

E, quando eu morrer
Eu só peço
que a maior delas
seja enterrada comigo
E que coloquem as outras
Ao redor de meu túmulo

 

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