Leonardo Antunes: João e Maria: Dúplice coroa de sonetos fúnebres (2017)

Leonardo Antunes, autor do livro João e Maria: Dúplice coroa de sonetos fúnebres (Patuá, 2017), é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS. Nasceu em São Paulo, em 1983, e fez graduação, mestrado e doutorado na USP. Em 2012, publicou sua dissertação de mestrado, Ritmo e sonoridade na poesia grega antiga: uma tradução comentada de 23 poemas, em que traduziu uma coleção de poetas gregos antigos, como Safo, Anacreonte, Arquíloco e Píndaro. Atualmente trabalha em uma tradução rítmica e musicada para o Édipo Rei, de Sófocles, e na edição da poesia completa de Anacreonte e dos Hinos Homéricos.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro João e Maria: Dúplice coroa de sonetos fúnebres (Patuá, 2017). A obra é composta de duas coroas de sonetos e, nesta publicação estão três sonetos consecutivos da segunda coroa – Maria.

 

 

I

 

Maria trabalhava todo dia
Das catorze às dezoito, com direito
A um suco de laranja e um prato feito
Assim que ela chegasse, ao meio-dia.

Depois que ela almoçava então vestia
Seu uniforme, punha sobre o peito
O crachá com seu nome rarefeito
E registrava o horário em que o fazia

Tinha três filhos, uma mãe doente,
Dois cachorros sem raça definida
E um barraco não seu, mas alugado.

Por isso, sujeitava-se, temente,
Àquilo, porque assim ganhava a vida
Num açougue nos fundos do mercado.

 

 

II

 

Num açougue no fundo do mercado,
Fazia já três anos que Maria
Suportava o que só suportaria
Alguém com seu destino malfadado.

A cada vez que vinha do seu lado
O seu supervisor, Maria ouvia
Alguma troça, alguma baixaria,
Ou tinha o corpo súbito apalpado.

Os seus colegas, uns achavam graça
De ver alguém tratada como escrava;
Outros queixavam sem ser escutados;

Porém, a maioria, na desgraça,
Fingia que não via e se ocupava
Cortando bifes, embalando o gado.

 

III

 

Cortando bifes, embalando o gado,
Maria carecia infelizmente
De justiça aos abusos do gerente,
Juiz de toda causa no mercado.

Na vez em que ele foi indiciado
Por Maria a seu superintendente,
Não houve resultado, mas somente
Abuso ainda maior e concentrado.

Por isso então Maria, injustiçada
Escondia, nos bolsos do uniforme,
Retalhos tantos quantos conseguia

Furtar das tenras carnes da bancada,
Que separava com cuidado enorme,
Pondo em bandejas a mercadoria.

 

 

 

Primata

2 Comments

  1. Leonardo… qdo vc nasceu eu já brincava de poesia há uns 15 anos. Mas nao conhecia vc… e posso dizer que estou encantando com esses tres sonetos de sua coroa… quero ter o prazer de ler inteira as duas coroas… eu só fiz uma, mas imperfeita. gosto de sonetos clássicos. gosto de alexandrinos… tenho um poema todo em oitava rimas, e outro todo em versos alexandrinos… gostaria de trocar figurinhas com vc. TFA esiopoeta. se me responder ebvue yn enauk cin sey ebdereço

  2. Parabéns por tão belo sonetos, parabéns pelo merecido prêmio.
    Conversamos no Açorianos, lembra e quero muito te convidar em maio ou junho para um Sarau na Roda de leituras.
    vou postar este teu blog lá na nossa página-roda de leituras laura rRngel

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