Lívia Lemos Duarte: Anfíbios (2021)

Lívia Lemos Duarte (Niterói, 1981),  é autora do livro de poemas Anfíbios, publicado em 2021, pela Editora Patuá. É mestre em Ciência da Literatura pela UFRJ e em Filologia Hispânica pelo CSIC, em Madri. Atualmente, é professora de português no Centro Cultural do Brasil, em Barcelona, onde reside desde 2010.

foto: Julio Arenas

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Anfíbios (Patuá, 2021).



SAPOS


Passe a sua língua pela minha pele
Tem o outro que sou eu,
em mim que vira você.

As pequenas marcas no corpo
são pegadas por andar com as mãos,
com olhos entrelaçando dedos
e fluidos liberados por brânquias. O corpo.
O que vem dentro do corpo?

Semáforos em fogo anulam cores
gotas de chamas
chamam o meu nome
em verde de folhas úmidas,
vermelho coágulo de sangue,
mimético amarelo, deslizando
as curvas.

Atenção.

Passe a sua língua sobre a minha pele.
Este é um motivo para sentir a façanha
de estar em ambos lados.




PASSAGEM DE SOM


Ouvi um estalo dilacerado
de fome de vida,
enquanto o céu reluzia
imenso sobre a minha cabeça.
O tempo, foi o tempo
que mapeou o meu corpo
agora.
Como um laço guardado no peito,
Como uma foto amarelada,
na bancada
da padaria onde tomei um café
antes de atravessar a rua,
onde as árvores ao fundo
sussurravam em meus ouvidos:
tudo aconteceria de novo
pela última vez.


PALCO


Se algum dia a vida desdobrar meu nome
aos campos do mais profundo prado
me lembrarei em vão daquele negro pássaro
escondido e tão à vontade
assobiando em meu ninho de espumas
suas meias inteiras verdades.

E eu só serei uma mulher que tinha
pele, útero, garganta, uma guitarra vazia,
lábios beijando serpentes
atadas aos dedos e ao sopro das asas
por espadas manchadas.

Se algum dia os sinos tocarem meu nome
nos campanários vazios da floresta inundada
eu serei então como tortas ruínas
meu corpo em plumas de gaiolas frias
à força do brilho do velho chapéu
de dor que não me caberá.


MEU QUINTAL


No trânsito,
pelo aterro do Flamengo
os automóveis se espalham
rápidos,
despreocupados
com as ruas acontecendo.
Nas estradas,
onde não há mais
identidade entre mim
e os carros que invadem
como um oceano ilegítimo
as escuras ondas
que arrastam as conchas
das ruas para o verde
escuro
do fundo da cidade.





Primata

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *