Raquel Gaio

Raquel Gaio nasceu e reside na cidade do Rio de Janeiro. É poeta, performer e também utiliza a fotografia para se dizer, pra expressar sua poética. Aprecia a imensidão do voo de um pássaro como também tem fascínio por ruínas e miudezas. Leva uma vida anfíbia.

 

raquel gaio

 

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tenho a noite estilhaçada na jugular
e uma fome que não abandona seu canil.

esta carne permanentemente em queda.

há um pônei desidratado no peito
e uma puta carecendo de abrigo
sou a encarnação de quedas passadas
imploro por perdões e ossos melhores
mas não há céu que me ouça.

tento fotografar meus batimentos cardíacos
para emoldurá-los nas paredes de casa
mas antes mesmo do click
regurgito-os cheios de ontens intactos.

sujo as imagens para vislumbrar a queda.

 

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o filho que nunca tive me chamando de mãe
num clamor duro que desfolha-me em outras

deixo-o na roda gigante em looping
para que a palavra lhe caia da boca.

não há assento ao teu lado
todos os filhos abandonados como um fetiche.

estou vermelha de tanto cotidiano
não posso ver sua voz
sem atravessar nossos despenhadeiros

inundo a bilheteria
enquanto o vejo rezar
e nenhuma hora amadurece

quisera eu ser ordinária
e seus gritos não estariam
pinçados em meus braços.

sei que nunca haverá resgate pra nós

somos feito calabouço
sangue estancado
longo esquecimento.

 

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quisera eu evitar os desertos e os acidentes
os silêncios e os pântanos
não confundir os nortes nem as marés
o lodo da espera com a dissimulada inteireza do corpo

mas há a noite batendo desencarnada no céu de nossas bocas
a medula de nossas palavras roçando obstinadamente nesse poema

meu corpo se abre tentando te alcançar
fissura é meu nome

porque há esse querer de amanhecer dentro de teu escuro
abri-lo como quem solta um pássaro
a vertigem de um deus o amor prometido
a infância mutilada.

 

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sou um mamífero ensopado de desejo
um rio que não para de desaguar
um leito inchado de tantos porvires

tenho o corpo amolecido pela mutilação dos dias
e um pássaro que se debate no escuro de minhas coxas

sei do fracasso da palavra desejo
da imensa guilhotina do século XIX que nos acompanha

– não há um tempo justo para cada corpo

isso que vês aqui,
nesse corpo que não para de minguar,
é apenas uma futura ruína

– cartografia dos dias inevitáveis

não tenha medo, porque a tua
tão escura mas evidente
também estará junto a minha
evaporando toda a queda do nosso desejo.

 

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que fotografei tua partida e pendurei no basculante da cozinha.
não roo mais unhas
não tenho mais nervos
você levou um bateau mouche preso aos seus dedos
nada me deixou.
mas a casa (toda ela) está impregnada do cheiro fóssil da tua ausência.

fico tentando adivinhar quanto tempo tem esse fóssil
que idade tem as cicatrizes espalhadas pelo meu corpo
e não lembro.não sei.
se afogaram (eu me afoguei) em algum ponto manco do quarto.

-quanto tempo dura as digitais em um corpo?
-as digitais ficam em um corpo?

fiz um jantar bem gostoso hoje
(acho que) estou aliviada por não ter que dividir com você
você, essa ossada de pixels tremeluzindo no meu computador.

Primata

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