Diogo Cardoso: Sem lugar a voz (2016)

Diogo Cardoso é bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo. Participou de diversos projetos literários, dentre eles o sarau Faça pArte, em parceria com o departamento de cultura de São Bernardo do Campo, Leitores itinerantes, sob curadoria de Tarso de Melo e foi um dos curadores do projeto Clarice Lispector:. Frequentou 
diversas oficinas literárias, dentre elas Tantas Letras, sob coordenação de Tarso de Melo, e de Criação poética, 
sob coordenação de Claudio Willer. Têm publicações em diversas revistas literárias, impressas e virtuais, dentre as quais Polichinello, Zunái, Mallarmargens e O Cacto. Atualmente, é integrante do coletivo Tantas Letras.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Sem lugar a voz (Dobradura Editorial, 2016).

 

 

 

 

OS FOGOS

 

 

minha voz grita
a distância que seus cabelos
cantam fogos ateados.

o grito bate nos cabelos,
voz de fogo ardendo púrpura em sua
boca que guarda esse meu grito oco.

longe.

o desespero queima as idades,
meu grito estancado no vento
onde seus cabelos deitam
carícias que minha voz guarda silêncios.
– seus cabelos de rosáceas mudas.

grito o desespero oblíquo de não tocar-me

os seus cabelos que não
me batem luzes líquidas
a sua boca que guarda
em mim o seu silêncio

– grito que seus cabelos em minha boca
sepultam

o que de ti me calo

 

ABANDONO

 

 

salas informes contra a cabeça.

paredes que não se trans-
passam.

a ferida cede à fenda que a convida escuro adentro

cabeça contra o infinito

 

 

MULHER. CAVALO.

 

 

eram a mulher e o cavalo.
a mulher tinha cascos nas pernas e as crinas
vermelhas de suas têmporas diziam adeus no vento.
os cabelos deitavam fogos na lembrança, bebendo
cada pedra que pisava caminho.
o cavalo ao lado.
o cavalo de ancas esquartejadas, marchando dentro
de uma dança cavalgada em poeiras ao norte
das pupilas.
a mulher e o cavalo sorriam o arco do dia. desnudavam
as poeiras vestidas nas ruas e cada passo era um
adeus obsessivo. o cavalo olhava a delicadeza de
acenos ausentes em sua solidão de pasto. a mulher
dançava o canto de sua solidão.
a mulher deitava crinas de fogo, estilhaçando
volúpias ao céu. o dia cheirava a desejo e a mulher
e o cavalo eram a nascente dele.
a mulher e o cavalo atravessavam a linha infinita que
divisa os nomes; despontavam onde o sol queima
todas as mortes.
as crinas e cascos e ancas estavam acima e estavam
abaixo. lado e outro.
dentro. fora.
a mulher. o cavalo.

 

 

VOZ. AS VOZES.

 

 

sêmen rescindido em vozes unívocas
atrás da língua proibida

palavras quebradas na boca
escombros de dialetos

flor abrindo-se nos lábios
escorrendo signos azulados
em alfabetos líquidos

uma luz ascende aos ossos
circulando os gestos e
cada movimento era um poema nascido

antigamente

os dedos apontavam o verbo
o sêmen envolve a pele, bate nas pétalas
estilhaçando a língua

– o poeta nasce do nome

 

 

Primata

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