Pedro Mohallem nasceu em 1996, em Itajubá–MG. É poeta, professor e tradutor. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo, onde também concluiu o Mestrado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês. Em 2019, publicou pela editora Patuá seu livro de estreia, Véspera; Debris, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura. Seus trabalhos de tradução incluem a antologia poética Sol dos Insones, de Lord Byron, em parceria com Leonardo Antunes e Bruno Palavro (Zouk, 2022), e O Mercador de Veneza, de William Shakespeare (Sétimo Selo, 2024). Mudaves é seu segundo projeto autoral.

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Mudaves (Ofícios Terrestres, 2025).

TRADUZIRES
Homero desembarca no Tietê;
Shakespeare acena a Chaucer de bombacha;
Bishop revira a Gávea, mas não acha
as chaves que caíram; Mallarmé
tromba cummings no campus; Browning vê
pousar um bem-te-vi – quebra a tarraxa;
Glück atravessa Dante cabisbaixa;
Celan faz gargalhar a Rabelais;
Li Bai faz uma live com Bashô;
Safo e Szymborska vão ao Memorial,
Chânfara e Adonis à Paulista; Poe,
só na cachaça – e o inferno tropical
roça de leve o pulso de Rimbaud
em Salvador, ao som de Dorival.
.
Firma teus olhos nesta areia rasa:
ela será teu pasto exílio afora.
Estamos indo sempre para casa.
A acalcanhar indiferente brasa,
a ti somente é que teu pé desflora.
Firma teus olhos nesta areia rasa;
o mais é um limiar que se defasa,
hortos de que o deserto se assenhora.
Estamos indo, sempre… Para casa
nos arroja o simum – raiz ou asa? –
e o cedro da memória, luz canora,
firma teus olhos nesta areia rasa
que fremente e contínua te extravasa.
Não esperemos por nenhuma aurora:
estamos indo sempre para casa.
O tempo há de trazer em rubra gaza
nosso punhal e nossa fé. Por ora,
firma teus olhos nesta areia rasa…
Estamos indo sempre para casa.
MAIS UMA CANÇÃO D’OUTONO
A partir de Verlaine
Longos plangores
de violas, flores
da estação:
um monocórdio
torpor remorde
o coração.
Mal respirando,
pálido, quando
soa a hora,
relembro os idos
dias vividos,
e a alma chora.
E vou, disperso
no vento adverso
de vencida
aonde ele escolha:
cá, lá
qual folha
já caída.
.
Vermelho fruto malmente visto,
que a sombra atiras sobre meu rosto,
por que me lembras tanto de Cristo?
Porque não toco, mas sinto o gosto?
Porque te acusas, na altura, misto
de luz e carne, destino e mosto?
Por não caíres se a lança enristo
contra teu cerne já decomposto?
Vermelho fruto malmente visto,
tão menos visto que pressuposto,
é só por isto, é só por isto:
porque és a sombra sobre meu rosto.
