Jeanine Will: Caminhão de mudança (2017)

Jeanine  Will, humana amadora desde 1975, poeta, tradutora. Nasceu em Santa Catarina e vive em São Paulo. Evadida dos cursos de letras português, artes cênicas, comércio exterior e letras alemão e do cursinho para medicina. Formada em tradução e interpretação inglês/português pela Unibero.
Desde 2006, mantém consigo uma oficina permanente de criação poética no blog http://www.caminhaodemudanca.blogspot.com. Lá publica seus poemas, fotopoemas, videopoemas, qualquer-coisa-poema e desenhos. Contato: [email protected]

 


foto: Lilli Ferreira.

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Caminhão de mudança (Córrego, 2017).

 

 

ABAJUR

 

a nave da noite pousa na terra
vermelhos queimam velozes
os olhos da cidade devoram arrazoados

deixa tua máscara de lado
mergulha no azul deste quarto
queima teus lábios na ponta dos meus dedos
arranha tuas mãos nas minhas palavras
deita teu ouvido sobre este sussuro
pisa de leve na pista
abre teu zíper até a angustura
dança de costas pro abismo

as sombras são apenas sóis introspectivos

 

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Marco Aurélio de Souza: Anjo Voraz (2018)

Marco Aurélio de Souza (1989, Rio Negro/PR) é autor de quatro livros, com destaque para os poemas de Anjo Voraz (Editora Benfazeja, 2018) e Travessia (Kotter editorial, 2017). Doutorando em Estudos Literários (UFPR), publica em diversos periódicos e participa, entre outras, das antologias 29 de Abril: o verso da violência (Patuá, 2015, poemas) e 15 Formas Breves (Biblioteca Pública do Paraná, 2017, contos). Atua como professor na rede pública do Estado do Paraná e vive em Ponta Grossa. Contato: [[email protected]].

 

 

O poema a seguir faz parte do livro Anjo Voraz (Editora Benfazeja, 2018).

 

 

NENHUM AMOR JAMAIS HESITA

 

 

Não, jamais eu hesitei no meu amor
Embora tudo fosse assim
Alguma dúvida fincada em meu peito
Latejando a incerteza por trás das cortinas
Exceto pela força infinita desse laço
Tão frágil, unindo a penugem
De duas crianças.

Como a cachoeira se derruba
Sem perguntas,
Aos olhos do novo
Somos alguma imensidão
Se revelando
Mediante um gesto que despacha
A dor de um dia cansado.

[…]

Mãe, o quanto em ti
Era a menina organizando suas bonecas
Antes de lavar a louça e varrer a casa
Procurando Deus no brilho dos móveis
Onde eu só via o esgoto da vida
Consumindo nosso tempo
De brincar?

Carregando o sonho da família em suas mãos
Você podia tudo
Desde que cantarolasse uma canção do rádio
Enquanto passava nossas roupas
Dando razão e sentido
Ao delírio da existência.

E porque eu era o filho
Tudo estava sempre em seu devido lugar
Vez que o trabalho exaustivo dos teus dias
Era tirar todos os frisos do silêncio
Domesticando a escuridão.
E atrás do pai, por isso, ainda o filho
Pedindo a ponta dos teus dedos
Em meu rosto assustado
De guri.

[…]

Falei com Maitê todos os dias
Enquanto aqui, longe de casa.
Sente saudades e dormiu com sua mãe
Como eu fazia com você
Quando um lugar à sua cama
Parecia vago.

Por um momento
Senti tua benção derramando
A eternidade em minhas veias.

[…]

Não, meu bem, nunca me esqueço do teu rosto
Quando à distância me renovo
No desejo íntimo de fuga
& autodestruição.

E será isso então tornar-se o pai?
Ser um agrimensor de todas as rotinas
Delimitando as fronteiras da morte
No pêndulo que oscila entre o refúgio
Da casa e a culminância de um gozo
Solitário?

Nem bem o dia se passou inteiramente
Neste quarto nauseabundo de hotel
E tua falta já emerge
No horizonte forasteiro
Contornada pela sevícia de um colorido
Em tudo estranho, insuportável.

Devia deixar este poema pra depois,
Sair comer alguma coisa na esquina.
Sei que será impossível.
Há uma beleza que se inflama
Na natureza das coisas.
Já estou longe, muito longe
E o amor jamais hesita.

 

 

Ana Paula Simonaci: voo (2018)

Ana Paula Simonaci nasceu em 1990. É curadora, pesquisadora e poeta. Formada como bibliotecária, é mestre e doutoranda em Memória Social pelo PPGMS – UNIRIO. Como coordenadora de literatura e biblioteca do SESC-Rio, é curadora de projetos culturais, como festivais, mostras, exposições literárias, seminários, entre outros.

Os poemas a seguir fazem parte do livro voo (2018), parceria das editoras Azouge e Circuito.

 

 

CANTO VII

 

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Roberto Piva: Abra os olhos e diga ah! (1975)

Roberto Piva (1937-210) é autor da plaquete Ode a Fernando Pessoa (Massao Ohno, 1961) e dos livros Paranóia (Massao Ohno, 1963), Piazzas (Massao Ohno, 1964), Abra os olhos e diga ah! (Massao Ohno, 1975), Coxas (Feira de Poesia, 1979), 20 Poemas com Brócoli ((Massao Ohno, 1981), Quizumba (Global, 1983) e Ciclones (Nankin, 1997), reunidos em três volumes pela editora Globo, sendo o último – Estranhos Sinais de Saturno – acompanhado de poemas inéditos. Marcada pelo experimentalismo, múltiplos diálogos e alta qualidade das imagens poéticas, sua obra é uma das mais intensas da poesia brasileira contemporânea.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados de Abra os olhos e diga ah! (Massao Ohno, 1975), terceiro livro do poeta. Confira a postagem sobre suas outras obras neste endereço.

 

 

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VISÃO ANTROPOLÓGICA DO CANTO DA JANELA
    PRISMADA EM GELÉIA-CORAÇÃO NO VINHO
    DE MARÇO (o mês mais terrível)
            novos animais de rapina
OS OLHOS DO MEU AMANTE OS OLHOS DO MEU AMANTE
              galáxias internas OLHOS LIBERDADE galáxias internas
    no fundo cor-de rosa do chocolate eu te respiro
                nas tripas só com os mortos & seus travesseiros de
           flores
                nas tripas extravagantes meu amor atrás das
vitrinas
                        só com os mortos o universo é um espirro
           no útero da maçã
                            tudo começa
                            a anoitecer
                        cheio de energia

 
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Orides Fontela: Alba (1983)

Orides Fontela, uma das mais importantes poetas contemporâneas brasileiras, nasceu em São João da Boa Vista (SP) no ano de 1940 e faleceu em Campos de Jordão (SP) em 1998. Mudou-se em 1967 para a capital paulista, onde cursou filosofia na Universidade de São Paulo. É autora dos livros de poesia Transposição (Instituto de Espanhol da USP, 1969), Helianto (Duas Cidades, 1973), Alba (Roswitha Kempf, 1983), Rosácea (Roswitha Kempf, 1986) e  Teia (Marco Zero, 1996). Sua obra foi reunida em 2015 pela editora Hedra, acrescida de poemas inéditos.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do seu terceiro livro Alba (Roswitha Kempf, 1983). Confira a postagem sobre suas outras obras neste endereço.

 

ALBA

 

I

Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso
na carne.

II

Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
– e a primeira vez
é sempre.

III

Toque
de um raio breve
e a violência das imagens
no tempo.

 

IV

Branco
sinal oferto
e a resposta do
sangue:
AGORA!

 

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William Soares dos Santos: Poemas da meia-noite (e do meio-dia) (2017)

William Soares dos Santos (1972), é carioca, professor da UFRJ e escritor. Dentre os seus trabalhos literários se destacam o livro de contos Um Amor e os livros de poesias Rarefeito e Poemas da meia-noite (e do meio-dia), livro ganhador do Prêmio PEN Clube do Brasil para livros de poesias publicados em 2017. Página do autor: http://williamsoaresdossantos.com.br.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Poemas da meia-noite (e do meio-dia) (Editora Moinhos, 2017).

 

 

OS ELEFANTES

 

Quem
defenderá a vida dos elefantes
quando a África sangrar?

Quem,
no meio da floresta adentro,
enfrentará a tormenta das noites
sem sono e dos dias sem lembrança?

Quem
preservará a memória dos elefantes?

Quem
ouvirá o seu canto inaudível e
fará revelar os antigos caminhos
pelos quais a matriarca da manada
guiaria seus filhos
ao antigo e derradeiro lugar
dos seus ancestrais?

Quem
chorará, como choram os elefantes,
diante do corpo sagrado da matriarca
a repousar em meio à relva que,
pouco a pouco, a resguarda
em seu irremediável
destino?

Quando
seremos como os elefantes
e arrancaremos de nós toda a
ganância, todo o ódio, toda a fúria
que nos faz infimamente pequenos
diante da grandeza,

infinita
grandeza,

dos elefantes?

 

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Thiago Scarlata

Thiago Scarlata (1989) é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Incomunidade, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, O poema do poeta, Poesia Avulsa, Literatura&Fechadura, Vero o Poema, Carlos Zemek, MOTUS, Jornal Correio Braziliense, Jornal RelevO, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 e vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017. É autor do livro de poesia Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo (Editora Multifoco, 2017) e prepara seu novo livro “Salobre”, que sairá pela Editora Urutau.

E-mail: [email protected] / [email protected]

 

 

FEIJOADA

 

trinta e seis horas ou mais

isso é o indicado

para tirar do porco

o que é do porco

 

um dia e meio

intermitentemente

trocando água

 

quanto mais dessalgado

menos aquele pedaço de orelha

ofende o paladar

e quanto mais cozido

menos incomum

 

a colher de pau

meneia em caldo denso,

pedaçudo,

enquanto o bacon

enruga na frigideira

 

o que ocorre durante

a pressão da panela

é o êxodo

da alma do ex-animal

disparada no vapor frenético

daquela chaminé

 

depois da tormenta,

abrimos a panela

e o que era pé, rabo,

língua e lombo,

deformou-se entre caroços

absorvendo uma cor escura

numa forçada comiseração

ante à nossa

 

cega

 

fome

 

 

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Suzel Domini: Entre presa & fera (2018)

Suzel Domini é paulista, lua em virgem, fotógrafa amadora e viajante solitária. Professora e pesquisadora da área de literatura por formação e profissão. Poeta de notas curtas em velhas cadernetas (aliás, nas horas mais inoportunas) por sobrevivência ou infortúnio. De patins rosa magenta e spectrespecs deslizando a toda na contramão, desde 1988.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Entre presa & fera (Patuá, 2018).

 

 

LOUBOUTIN NUDE SALTO 15

 

meu sangue negroamaro circula em vibrato
pelos veios y vielas de sevilha
sou carmen distraída avant la tragédie
um corpoalma sol em fogo
namoriscando signos carnívoros

*

antes de entranhar a escuridão
atiro aos gatos um beijo de ruby woo
(querendo se dissimulados y oblíquos
meus lábios ébrios contornam o abismo)

 

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Leonardo Antunes: João e Maria: Dúplice coroa de sonetos fúnebres (2017)

Leonardo Antunes, autor do livro João e Maria: Dúplice coroa de sonetos fúnebres (Patuá, 2017), é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS. Nasceu em São Paulo, em 1983, e fez graduação, mestrado e doutorado na USP. Em 2012, publicou sua dissertação de mestrado, Ritmo e sonoridade na poesia grega antiga: uma tradução comentada de 23 poemas, em que traduziu uma coleção de poetas gregos antigos, como Safo, Anacreonte, Arquíloco e Píndaro. Atualmente trabalha em uma tradução rítmica e musicada para o Édipo Rei, de Sófocles, e na edição da poesia completa de Anacreonte e dos Hinos Homéricos.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro João e Maria: Dúplice coroa de sonetos fúnebres (Patuá, 2017). A obra é composta de duas coroas de sonetos e, nesta publicação estão três sonetos consecutivos da segunda coroa – Maria.

 

 

I

 

Maria trabalhava todo dia
Das catorze às dezoito, com direito
A um suco de laranja e um prato feito
Assim que ela chegasse, ao meio-dia.

Depois que ela almoçava então vestia
Seu uniforme, punha sobre o peito
O crachá com seu nome rarefeito
E registrava o horário em que o fazia

Tinha três filhos, uma mãe doente,
Dois cachorros sem raça definida
E um barraco não seu, mas alugado.

Por isso, sujeitava-se, temente,
Àquilo, porque assim ganhava a vida
Num açougue nos fundos do mercado.

 

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Lilian Sais: Passo imóvel (2018)

Lilian Sais é escritora e uma das fundadoras da plataforma de ensino Literartéria. Doutora em Letras e pesquisadora e tradutora da área de grego antigo, é paulistana de nascença e fumante assídua por opção. Leitora voraz da literatura brasileira contemporânea, gosta de samba, cerveja e poesia e é defensora da boemia, de piadas ruins e das conversas descompromissadas de mesa de bar. Os amigos dizem que é uma peste, mas que cozinha bem. Ela nega.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados da obra Passo imóvel (Editora Cozinha Experimental, 2018).

 

 

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há ausências demais
no entorno da mesa,

como cubos mágicos
só montáveis
por daltônicos:

desses labirintos
só saio
com venda

 

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