Lígia Dabul: Garça Torta/Crooked Heron (2017)

Lígia Dabul nasceu e vive no Rio de Janeiro. Publicou os livros de poesia Som (Rio de Janeiro, Editora Bem-Te-Vi, 2005), Luces/Luzes (La Plata, Editora Universidad Nacional de La Plata, 2008), Nave (São Paulo, Lumme Editor, 2010), Garça Torta/Crooked Heron (Londres, Carnaval Press, 2017) e a plaquete Algo do Gênero (São Paulo, Arqueria Editorial, 2010). É professora colaboradora das Pós-Graduações em Sociologia e em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense, onde faz pesquisas em antropologia e sociologia da arte.



Os poemas a seguir foram selecionados da obra Garça Torta/Crooked Heron (Londres, Carnaval Press, 2017), cuja ilustração de capa Maravilhas (2015) é de Lua Celina.



JARDIM DA SEREIA

Cravo as patas
no Jardim da Sereia.
Um inseto encontraria
fácil as esculturas

depois de quase ser levado
pelo vento frio e solidão
na Praça da República.

Se eu fosse um casal
gastava aqui – banco
azul infinito –
o resto da manhã.

Um pássaro, engolia
os confetes que sobraram
da festa da véspera
atraído por sementes
varridas ainda agora.

A fonte onde azulejos
luzem sob limo
talvez cante.


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Luís Perdiz: Desejo de terra (2019)

Luís Perdiz nasceu em Campinas/SP. Poeta, compositor e editor, coordena a revista eletrônica Poesia Primata com foco em literatura brasileira contemporânea.

Desejo de terra, seu livro mais recente, foi contemplado com a bolsa de Criação e Publicação Literária ProACSP. Com apresentação de Jorge Mautner e prefácio Claudio Willer, a obra retoma suas principais influências: o modernismo brasileiro, a tropicália, o surrealismo e a geração beat.



Os poemas a seguir foram selecionados da obra Desejo de terra (Primata / Patuá, 2019), disponível para aquisição neste link.



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Através dos sonhos
sambamos cegos
de tanto néctar.
As raízes rugem
anunciando o sol.

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Telma Scherer: Squirt (2019)

Telma Scherer é artista e professora do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFSC, na área de literatura brasileira. Atuou como professora substituta no Centro de Artes da UDESC, na área da linguagem pictórica. Trabalhou no campo da literatura e da performance, realizando apresentações de poesia e oficinas, para diversas instituições, entre elas o SESC/SC, o SESC/RS, a Bienal do Mercosul e a Prefeitura de Porto Alegre. Publicou o romance “Lugares ogros” (Caiaponte, 2019), o livro de artista “Entre o vento e o peso da página” (Medusa, 2018), e cinco livros de poesia: “Desconjunto” (IEL, 2002), “Rumor da casa” (7 Letras, 2008), “Depois da água” (Nave, 2014), “O sono de Cronos” (Terra Redonda, 2019) e “Squirt” (Terra Redonda, 2019). É formada em Filosofia (UFRGS) e em Artes Visuais (UDESC), com mestrado (UFRGS) e doutorado (UFSC) em Literatura, sobre a obra de Ricardo Aleixo, com período sanduíche na UPORTO, Portugal. Tem pesquisa na área da poesia expandida e da performance, bem como do contágio entre modos de escrita em literatura e artes visuais. Realizou pós-doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, linha de Processos Artísticos Contemporâneos.



Os poemas a seguir foram selecionados da obra “Squirt” (Terra Redonda, 2019).


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às vezes, uma fogueira aprofunda o vento. quando
se está a sós com os caderninhos é que se percebe
o quanto uma fogueira rasga o dia de pleno
alvorecer. seja no movimento dos sons, seja nos
ocos de alvoroços.
às vezes, uma fogueira se adensa de seu não ser.
é de quases, de nadas, de coisinhas finas e à toas.
às vezes, é no grau de uma fogueira assim, apagada,
em plena luz do olhar, que se percebe que
as varandas promovem a passagem dos rapazes.
e que eles vão roubar o doce de dentro das
madeiras, dos móveis, e subornam mamadeiras.
uma fogueira percebe que é tonto aquele que
coloca galhos e galhos desnecessários no vão do
dia. às vezes, uma fogueira faz besteiras, porque
não quer dizer o que ela é: verdade tanto para
dias quentes quanto para noites e para quando
a primavera se esquece de chegar. e nada disso
tem a ver com as pedras ou com as necessidades.
uma fogueira venera qualquer chão: e é no miudinho
da terra batida que ela abate mais uma
estrela. uma fogueira aprofunda o vento porque
ele não cessa de se esquecer. ela rebate as críticas
com seu sabor de brisa. uma fogueira sabe,
sim, aprofundar o vento. por isso, se apaga sozinha
ao contato do seu ímpeto, e se alastra pelas
margens, e se engasga no seu próprio squirt.

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Leticia Sodré: Ré (2020)

Nascida em São Paulo em 1987, Leticia escreveu o primeiro livro aos 9 anos. Foi publicação artesanal independente: capa de papel camurça, folhas dobradas ao meio e costura de fita de cetim. Dentro, poesias sobre grilos e cigarras. Anos mais tarde, as explorações de quintal a levaram a investigar a criança em si: o seu mundo interno — por meio das pesquisas em educação e psicologia – e a sua linguagem essencial — a poesia —, tendo frequentado, em 2019, o Curso livre de Preparação do Escritor (CLIPE), organizado pela Casa das Rosas. Publicou pela Editora Urutau em 2020 o livro “Ré”, materializando esse processo de ascensão à infância.




Os poemas a seguir foram selecionados da obra “Ré” (Urutau, 2020).




GEOGRAFIA DOS SABORES

a vida se aprende
antes pela língua

na ponta
o doce
delicado e pujante
o mamilo e o leite

língua adentro
o salgado
a gana por
tirar os véus

mais a fundo
a acidez
perceber que nem
sempre, nem tudo

no fim
o amargo
a morte
o não

e lá no côncavo
onde fica a saliva
e o que faz salivar
umami

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Matheus Guménin Barreto: Mesmo que seja noite (2020)

Matheus Guménin Barreto (1992) é poeta e tradutor mato-grossense, um dos editores da revista Ruído Manifesto. É autor dos livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Leipzig na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Teve poemas seus traduzidos para o inglês, o espanhol e o catalão; publicados em revistas no Brasil, na Espanha e em Portugal; e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse, Rainer Maria Rilke e outros. Entre os cursos que ministra esporadicamente está o “Verso vivo: introdução ao verso livre e ao verso fixo de Shakespeare a Criolo”.


Os poemas a seguir foram selecionados do seu livro Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020), disponível para compra neste link.



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o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura

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