Ruy Proença: Monstruário de fomes (2019)

Ruy Proença nasceu em 9 de janeiro de 1957, na cidade de São Paulo. Participou de diversas antologias de poesia, entre as quais se destacam: Anthologie de la poésie brésilienne (Chandeigne, França, 1998), Pindorama: 30 poetas de Brasil (Revista Tsé-Tsé, nos 7/8, Argentina, 2000), Poesia brasileira do século XX: dos modernistas à actualidade (Antígona, Portugal, 2002), New Brazilian and American Poetry (Revista Rattapallax, nº 9, EUA, 2003), Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (Publifolha, 2006), Traçados diversos: uma antologia da poesia contemporânea (organização de Adilson Miguel, Scipione, 2009) e Roteiro da poesia brasileira: anos 80 (organização de Ricardo Vieira de Lima, Global, 2010). Traduziu Boris Vian: poemas e canções (coletânea da qual foi também organizador, Nankin, 2001), Isto é um poema que cura os peixes, de Jean-Pierre Siméon (Edições SM, 2007), Um certo Pena, de Henri Michaux (Pãooupães Editorial, 2017) e, de Paol Keineg, Histórias verídicas (Dobra, 2014), Dahut (Espectro Editorial, 2015) e Entre os porcos (Pãooupães Editorial, 2018). É autor dos livros de poesia Pequenos séculos (Klaxon, 1985), A lua investirá com seus chifres (Giordano, 1996), Como um dia come o outro (Nankin, 1999), Visão do térreo (Editora 34, 2007), Caçambas (Editora 34, 2015) e Monstruário de fomes (Patuá, 2019). Publicou também os poemas infantojuvenis de Coisas daqui (Edições SM, 2007) e Tubarão vegano e outros elementos (Espectro Editorial, 2018).



Os poemas a seguir foram selecionados do livro Monstruário de fomes (Patuá, 2019).



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Caroline Policarpo Veloso: cartografia do silêncio (2019)

Caroline Policarpo Veloso nasceu em São Paulo em 1996. Graduada em letras, é animal metamorfo e nômade. cartografia do silêncio foi contemplado pelo edital de poesia do ProAC em 2018.


Os poemas a seguir foram selecionados da obra cartografia do silêncio (Patuá, 2019).

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as pedras têm muita força, ou somos nós?
viviane nogueira


imagina carregar uma montanha
dentro do corpo

a cada passo a cada gesto
mover pedras

(imagina a dor nos músculos o cansaço)

//

imagina carregar dentro do corpo uma
pedra
vermelha
que sangra

(sempre)

//

imagina o tanto de

silêncio
e grito
calma
e força


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Mercia Pessôa: Súrnia (1996)

Mercia Pessôa nasceu e mora no Rio de Janeiro. Poeta, é autora de Súrnia, (1996),  Zoa (2016) e Augusta (2019). Possui Doutorado em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP, com o tema “ Veredas Fáusticas da Narrativa: Almas Mortas e Grande Sertão” (2005), Mestrado em Poética (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ com  a dissertação “Misoginias Poéticas? A fragmentação do gênero em Gógol “(1998), é especialista em língua e literatura russa (1990).



Os poemas a seguir foram selecionados da obra Súrnia, (1996).




UMA MULHER E SUA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Tenho febre de lebre, anoiteço
Quase sem cor. De cor: “As horas
Que contém a forma
Na casa do sonho transcorreram”
Já não há mais rima para quedo
Que não seja medo
E talvez
Não haja conteúdo tampouco
O verso tornou-se um hiato
Entre o aposto e a eterna aposta
Seu reverso – uma partilha
Sem ponto final
E o que me resta jogar? Senão refutar
As palavras em perdas e ganhos. Para depois
Sorrir, sem fazer carnaval, demonstrando
O corpo e os dentes
Ao etéreo namorado

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Roberto Casarini: Mudos muros (2019)

Roberto Casarini (Marília/SP, 8.10.1983), ou Casa, publicou os seguintes livros de poesia: Casa Rio (Medita, 2013), Casa Fogo (Medita, 2013), Piroca na Oca (Medita, 2014), Casa Mari (2015), Casa 08 80 (Urutau, 2017) e Poemas Permutantes (Ed. Lab, 2018). O livro Mudos Muros se pinta de versos à máquina (vermelho e negro), nas paredes de casa e nos muros da cidade. Perseguidor de novos traços e espaços. Poeta concreto e argamassa. Poeta de ocas e casas ao acaso. Poeta de 80 mundos em Mudos Muros. Lá, aonde ergueram muros, o coro coletivo pinta a poesia.




Os poemas a seguir foram selecionados da obra Mudos Muros (Córrego, 2019).


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Helena Borges: Peito do pé sobre peito (2019)

Helena Borges nasceu em setembro de 1993. Carioca, foi morar em Belo Horizonte em 2017 para cursar artes plásticas na Escola Guignard, hoje frequentando o sexto período, depois de pedir transferência do Instituto de Artes da UERJ. Experimenta diversas linguagens e temas no seu processo criativo, como pintura, fotografia, cerâmica, desenho e escrita. É fascinada pelos fenômenos misteriosos da existência e horrorizada com certos fenômenos sociais, temas que são recorrentes no seu fazer artístico e mágico.


Os poemas a seguir foram selecionados do livro Peito do pé sobre peito (Urutau, 2019).


POEMA DE UM EXISTIR INTEIRO


Nesta noite de domingo entro no ônibus e na janela estourada há cacos de vidro.
Eu os pego, não é?
Pedaço transparente todo picotado, em sua superfície desenham-se caminhos verdes, lagos, rios?

O caco de vidro está quebrado em 10 mil pedaços
tão pequenos
e genuínos
que possuem luz.

Com as minhas mãos preciso esfarelá-los.
(Não sinto-as mais
há tempos.)

Cada pequeno pedaço transparente todo picotado, em sua superfície desenham-se caminhos azuis, ruas, calçadas?

São fios de vidro.
Segurá-los faz cortes nas mãos
e eu sangro ao esfarelá-los.

Cada fio de pequeno pedaço transparente todo picotado, em
sua superfície desenham-se caminhos vermelhos, veias, artérias?

Esfarelo-os enquanto vejo os fios se misturarem ao sangue,
ao meu sangue grosso.
E já estou no centro?

O essencial é microscópico!

Cada micro fio de pequeno pedaço transparente todo picotado, em sua superfície desenham-se caminhos brancos, nuvens, frios?

A vida incontrolável captura o vidro transparente e desse existir inteiro não se sobra nada.
(Não sinto-as mais,
há tempos.)

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Isadora Krieger: Explorações Cardiomitológicas (2018)

Poeta e escritora, em 2018 publicou o livro de poesia Explorações Cardiomitológicas (Editora da Casa), semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura em 2019 e suplente no edital de residência artística do Sesc SC em 2018. Em 2017 publicou a novela O wi-fi da igreja é muito fraco (Editora Urutau). Em 2014 publicou o romance Memória da Bananeira (Carniceria Livros), o livro de poemas e fragmentos O Gosto da Cabeça, na coleção Poesia Menor (Publicações Iara) e a novela “Caráter Anal”, na coleção Boca Santa (Carniceria Livros). Atualmente trabalha na peça de teatro Amadeleite. Realizou oficinas de escrita em São Paulo, São Carlos, Belo Horizonte e Balneário Camboriú.

foto: Julieta Bacchin


Os poemas a seguir foram selecionados da obra Explorações Cardiomitológicas (Editora da Casa, 2018).


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só será possível escrever a carta desconsiderando entregá-la
só será possível escrevê-la desconfiando que tu já a lês
numa terra que antecipa os símbolos, indícios de incontáveis perdas e de alguma improvável luz
que guarda a palavra saudade, no cão que uiva incansavelmente à noite
como se soubesse, mas não aceitasse que o abandono foi inevitável, porque todos os abandonos são. e o que nos resta, e o que sempre restará, será a solidão do próprio reflexo
que guarda também a palavra paciência, na pedra apta a permanecer para sempre pedra e até propensa, e, inclusive, mais talentosa do que qualquer sacerdote, a nos ensinar o silêncio e a abnegação
que guarda, ainda, a palavra amor em estado primevo
no pássaro que aceita o ninho destruído pelo vento, e sobretudo, pelo toque humano – portanto inábil por natureza. afinal, por que as crianças se divertem tanto mirando estilingues contra o céu?
esta é uma das oitenta e sete perguntas que não te fiz, oitenta e sete respostas que não tive
mas não há alternativas
não há nem mesmo uma única alternativa (a não ser agir como cão, pedra e pássaro)
quando o estoque de velas foi gasto de maneira inapropriada
numa despedida que serviu para tudo
menos para dizer adeus.
só será possível entregar a carta imaginando-te velho, ainda mais velho do que quando te conheci
sentado numa velha cadeira
fumando um velho charuto
sozinho numa velha varanda
diante de uma velha paisagem
tão velha quanto a ideia de deus.

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Leandro Rodrigues: Aprendizagem cinza (2016)

Leandro Rodrigues (1976) nasceu em Osasco, São Paulo. É Poeta e Professor de Literatura. Já lançou os livros Aprendizagem Cinza (2016) e Faz Sol Mas Eu Grito (2018). Participou das antologias: Hiperconexões 3 – Carbono & Silício (2017), O Casulo (2017), Sarau da Paulista (2019), MedioCridade (2019) e 15ª Antologia SESC Carlos Drummond de Andrade (Brasília). Já teve poemas traduzidos e publicados na Espanha (revista sèrie Alfa) e nos Estados Unidos (revista Dusie Nº 21 da UCLA (Universidade da Califórnia)), também em diversos sites, jornais e revistas do Brasil e de Portugal.


foto: Jesse Navarro


Os poemas a seguir foram selecionados da obra Aprendizagem Cinza (Patuá, 2016).



O HOMEM DE PAPEL

Então acaba-se assim um homem
Num segundo – e já não existe mais.
O que fez; o que não fez – a tarde
O que faria; o que desejaria ainda.

Ponto final. Vira-se a página.

O homem é passado. Passou.

Recorte de recortes.

O livro fechado esquecido.

Mera ilusão. A noite
Empoeirada em estantes,
As revoltas (reviravoltas),
O sofrimento, a chama.

Sequer o adeus reservado.

Apaga-se.

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Arthur Lungov: Anticanções (2019)

Arthur Lungov é poeta e editor de poesia da Lavoura, revista de literatura contemporânea. É autor dos livros Luzes fortes, delírios urbanos (Patuá, 2016) e Corpos (inédito), que foi contemplado pelo 2° Edital de Publicação de Livros da Cidade de São Paulo; e da plaquete Anticanções (Sebastião Grifo, 2019). Foi publicado em coletâneas e revistas literárias. Foi curador convidado da Casa Philos na FLIP 2018, e na Cadeia Literária na FLIP 2019. Email para contato: [email protected]



Os poemas a seguir foram selecionados da plaquete Anticanções (Sebastião Grifo, 2019).



APESAR DE VOCÊ

através e aos arrancos os necos puxados feito patas rasgando o fino fio da mortalha desta eloquência de fragmentos que aderem à garganta como sufoco no escuro da glote tornada moela pra esmigalhar o elixir viperino jorro escarrado falido nesse choro seco e antecipado primeira condição dos dividendos vindos do samba penumbra vivaz que há de decretar o rolar de lágrimas como enormes rochedos a descer cascata punindo o grito empedrado de lado por suas invenções desmentidas.

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Rosana Piccolo: Alla Prima (2019)

Publicitária e poeta paulistana, atualmente em Curitiba. Autora dos livros Ruelas profanas (Nankin, 1999), Meio-fio (Iluminuras, 2003), Sopro de vitrines (Alameda, 2010), Refrão da fuligem (Patuá, 2013), Bocas de lobo (Patuá, 2015), Alla Prima (Patuá, 2019), além da plaquete O pão (Lumme, 2017). Organizadora da antologia MedioCridade (Laranja Original), ao lado do poeta Rubens Jardim. Participação em diversas antologias e revistas de literatura do Brasil, Portugal, Espanha e Moçambique.



Os poemas a seguir foram selecionados da obra Alla Prima (Patuá, 2019).



DIÁRIO DO DIA


O dia chega aos trancos, nas presas da serra elétrica.
Com negra gordura vela o semáforo, britadeiras
latejam no chão difícil. Detém-se no arranha-céu.
E empilha suas dentaduras de prata.
Chega estridente. E vocifera, e machuca a manhã
de tímpanos frágeis. Na chaminé desabafa,
mistura gel e fumaça – penacho de pressa
nos cafés expressos.
O dia saliva nas filas. No comedouro do meio-dia
e meia, onde a carne esfria; e se requenta
em banho-maria.
E desaba. E pisoteia letreiros, esquinas desencantadas.
E se enrodilha nas placas como fio embaraçado. E se
estica, e se espicha e esgarça
meu coração aos soluços.
Enfim o rapto da noite – ascende em bicicletas
e pombos recolhidos – na praça dos meus lagos,
onde enterro o céu no chão.

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