Leticia Sodré: Ré (2020)

Nascida em São Paulo em 1987, Leticia escreveu o primeiro livro aos 9 anos. Foi publicação artesanal independente: capa de papel camurça, folhas dobradas ao meio e costura de fita de cetim. Dentro, poesias sobre grilos e cigarras. Anos mais tarde, as explorações de quintal a levaram a investigar a criança em si: o seu mundo interno — por meio das pesquisas em educação e psicologia – e a sua linguagem essencial — a poesia —, tendo frequentado, em 2019, o Curso livre de Preparação do Escritor (CLIPE), organizado pela Casa das Rosas. Publicou pela Editora Urutau em 2020 o livro “Ré”, materializando esse processo de ascensão à infância.




Os poemas a seguir foram selecionados da obra “Ré” (Urutau, 2020).




GEOGRAFIA DOS SABORES

a vida se aprende
antes pela língua

na ponta
o doce
delicado e pujante
o mamilo e o leite

língua adentro
o salgado
a gana por
tirar os véus

mais a fundo
a acidez
perceber que nem
sempre, nem tudo

no fim
o amargo
a morte
o não

e lá no côncavo
onde fica a saliva
e o que faz salivar
umami

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Matheus Guménin Barreto: Mesmo que seja noite (2020)

Matheus Guménin Barreto (1992) é poeta e tradutor mato-grossense, um dos editores da revista Ruído Manifesto. É autor dos livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Leipzig na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Teve poemas seus traduzidos para o inglês, o espanhol e o catalão; publicados em revistas no Brasil, na Espanha e em Portugal; e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse, Rainer Maria Rilke e outros. Entre os cursos que ministra esporadicamente está o “Verso vivo: introdução ao verso livre e ao verso fixo de Shakespeare a Criolo”.


Os poemas a seguir foram selecionados do seu livro Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020), disponível para compra neste link.



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o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura

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Michaela v. Schmaedel: Coração Cansado (2020)

Michaela v. Schmaedel nasceu e mora em São Paulo. É jornalista e poeta, autora do livro Coração Cansado (Penalux, 2020), lançado em junho deste ano. Para 2021, prepara o livro Quênia – poemas de viagem, que sairá pela Cas’a Edições.



Os poemas a seguir foram selecionados da obra Coração Cansado (Penalux, 2020).



VISÃO 



Te encontrar numa praia  
de areia muito branca e mar muito azul.  
Pegar os teus dois olhinhos marrons  
e colocá-los num vidrinho em cima  
das pedras brancas da encosta.  
Ficar ali a ver o mar 
e a olhar os teus dois olhinhos 
e a lembrar que nem tudo  
o que está posto no mundo 
é para se pegar com as mãos. 

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Jefferson Dias: Qualquer lugar (2020)

Jefferson Dias, nascido em Monte Sião, MG, vive e trabalha em Ribeirão Preto, SP. Poeta e prosador, tem poemas, contos, traduções e resenhas publicados em diversos periódicos e portais de literatura do Brasil e de Portugal. É autor dos livros de poesia Último festim (Multifoco, 2013), Silenciosa maneira (Medita, 2015) e Qualquer lugar (Editora Primata, 2020).



Os poemas a seguir foram selecionados de seu livro mais recente – Qualquer lugar (Editora Primata, 2020), disponível para aquisição neste link.



O TORNIQUETE


Pedem-me que eu seja mais claro;
Mas se o vento tão aberto – 500 km/h! –
Espanca os míticos labirintos da visão
E se o noturno útero enreda a via férrea
Por onde passa a diurna cabeça de tigre,
Por que deveria eu estrangular
A imagem – pura sanguinolência elétrica,
Já um nódulo destrutivo na retidão do corpo –,
Por que deveria eu entregar-me
A um infenso utilitarismo?

Afio minha voz criminosamente,
De modo a poder me tornar, afinal,
Uma besta impossível.

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Fabiano Fernandes Garcez: Badaladas de uma preliminar (2020)

Fabiano Fernandes Garcez nasceu em 3 de abril de 1976, na cidade de São Paulo. Formou-se em Letras, é professor de língua portuguesa. É autor dos livros Poesia se é que há (2008), Diálogos que ainda restam (2010), Rastros para um testamento (2012) e Em meio ao ruídos urbanos (2016) finalista, na categoria autor do ano e poesia, do Prêmio Guarulhos de Literatura 2017 e vencedor do mesmo prêmio na categoria poesia, no ano de 2019, com Um grama, apenas, do abstrato, ainda no prelo. Além do mais novo Badaladas de uma preliminar (2020).




A seleção a seguir foi realizada a partir da obra “Badaladas de uma preliminar” (Editora Primata, 2020), que reúne poemas dos três primeiros livros do autor – “Poesia se é que há” (2008, Scortecci), “Diálogos que ainda restam” (2014, Penalux), “Rastros para um testamento” (2013, Penalux) – e mais alguns elencados em coletâneas e revistas virtuais e impressas. O livro pode ser adquirido neste link.



A POESIA QUANDO QUEIMA

Para Rubens Jardim



Traz o punho cerrado

golpeando o ar

a voz rouca

pausada, embargada

rasgando, rompendo

a tarde, a noite

no meio da avenida

ou na calçada

A poesia quando queima

ecoa potência

de uma prece

de uma luta

de uma vida

Que em todos

arde, consome ou

explode


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