Rosana Piccolo: Alla Prima (2019)

Publicitária e poeta paulistana, atualmente em Curitiba. Autora dos livros Ruelas profanas (Nankin, 1999), Meio-fio (Iluminuras, 2003), Sopro de vitrines (Alameda, 2010), Refrão da fuligem (Patuá, 2013), Bocas de lobo (Patuá, 2015), Alla Prima (Patuá, 2019), além da plaquete O pão (Lumme, 2017). Organizadora da antologia MedioCridade (Laranja Original), ao lado do poeta Rubens Jardim. Participação em diversas antologias e revistas de literatura do Brasil, Portugal, Espanha e Moçambique.



Os poemas a seguir foram selecionados da obra Alla Prima (Patuá, 2019).



DIÁRIO DO DIA


O dia chega aos trancos, nas presas da serra elétrica.
Com negra gordura vela o semáforo, britadeiras
latejam no chão difícil. Detém-se no arranha-céu.
E empilha suas dentaduras de prata.
Chega estridente. E vocifera, e machuca a manhã
de tímpanos frágeis. Na chaminé desabafa,
mistura gel e fumaça – penacho de pressa
nos cafés expressos.
O dia saliva nas filas. No comedouro do meio-dia
e meia, onde a carne esfria; e se requenta
em banho-maria.
E desaba. E pisoteia letreiros, esquinas desencantadas.
E se enrodilha nas placas como fio embaraçado. E se
estica, e se espicha e esgarça
meu coração aos soluços.
Enfim o rapto da noite – ascende em bicicletas
e pombos recolhidos – na praça dos meus lagos,
onde enterro o céu no chão.

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Lucas Perito: 38 Movimentos (2018)

Lucas Perito (São Paulo, 1985). Poeta. Escreveu livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico Caminhos da Mantiqueira (2011) de Galileu Garcia Junior. Publicou seu primeiro livro de poemas, 38 Movimentos, pela Lumme Editor (2018). Tem poemas publicados em algumas das principais revistas brasileiras, além de algumas revistas de Portugal, Espanha, Galícia, Colômbia e Peru.



Os poemas a seguir foram selecionados do livro 38 Movimentos (Lumme Editor, 2018).



A CAMINHO DE AXEL

“Que ele possa continuar a vencer
Tiamat e abreviar seus dias”


Bem escuro no fundo da noite sem fim
Começo narrando
Às margens do tempo
Um navio por casa
E uma tartaruga ao lado
Entre altas marés
E aves submersas
Este é o lugar dos relógios quebrados
Dos homens de areia
Da fome dos náufragos
Dos livros de cabeceira
Do acúmulo das coisas
Enterradas em um deserto.
Edificam-se os passos perdidos,
Incertos, caminho ao largo da ilha
Assumo a proa
Junto as palavras, faço o elo
“Detenham-me, sou tão belo”!
Era julho,
Não participou das alegrias de férias
Liderou uma turba de mortos
Sobre o azul do abismo
Mas o corpo não despertou
Do fundo da noite sem fim.

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Roberta Tostes Daniel: Uma casa perto de um vulcão (2018)

Roberta Tostes Daniel nasceu no Rio de Janeiro. Publicou os livros Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018) e Ainda ancora o infinito (Moinhos, 2019). Participou das antologias Sob a pele da língua – breviário poético brasileiro (Arc Edições), Um girassol nos teus cabelos – poemas para Marielle Franco (Quintal Edições), Desvio para o Vermelho (Centro Cultural São Paulo), entre outras. Seus poemas também foram publicados em sites e revistas literárias, tais como: Gueto, Germina, Mallarmargens, Zunái, Polichinello, Incomunidade, Liberoamérica.



Os poemas a seguir foram selecionados da obra Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018).



INFÂNCIA

Tenho a idade da Terra
chove desde sempre
meus galhos são suturas
observo o Pacífico de longe.

A chuva gretou pela infância
atraída por vagalumes imaginários
nunca foi tão escuro
as estrelas já eram míopes.

No meio do mato houve a chuva
no meio da chuva houve o mar
fiquei presa no Atlântico.

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Alberto Bresciani: Fundamentos de ventilação e apneia (2019)

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de Incompleto movimento (José Olympio Editora, 2011), de Sem passagem para Barcelona (JoséOlympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura – Poesia de 2015) e de Fundamentos de ventilação e apneia (Editora Patuá, 2019). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014), Hiperconexões (Editora Patuá, 2014), Pássaro liberto (Scortecci Editora, 2015), Pessoa – Littératurebrésilienne contemporaine (Revista Pessoa, editionspéciale – Salon du Livre de Paris, 2015) e Escriptonita(Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.





Os poemas a seguir foram selecionados da obra Fundamentos de ventilação e apneia (Editora Patuá, 2019)




HIENAS


I

Acreditamos
(em vão)
em mutações,
cura e resgate

Muitos sóis caem
e as impossibilidades
ainda sustentam
nossos desertos


II

A fome é o que mantém
as hienas acordadas.

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Laura Navarro: Sinestesia (2019)

Laura Navarro nasceu em São Paulo em 2000, e se interessou pela poesia aos doze anos – e, desde então, nunca mais parou de escrever. Ela já apareceu em coletâneas e vídeos do coletivo Senhoras Obscenas, além de já ter publicado dois livros: Clair de Lune (2016) e Natasha (2018). Atualmente, ela cursa jornalismo na Faculdade Casper Líbero.



Os poemas a seguir foram selecionadas da obra Sinestesia (Editora Primata, 2019), disponível para aquisição neste endereço.




FLANEUR

Olho aos cantos de minha cidade
como se passasse à tempos anteriores
aos meus
e andasse em outros sapatos
cheiro de fuligem que me penetra
a chuva cai lentamente
mudando lentamente
os tons do céu dos prédios dos museus
de absolutamente
tudo
erupção sensorial
de cores dissonantes
que podem ser
tocadas
pelos meus
mocassins

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Rudi Renato Jr.: E quando a flor um sorriso (2019)

Rudi Renato Tedeschi Júnior, Porto Alegre (28/11/1994). Começou a escrever poemas aos 18. Em 2014, passou a vendê-los no parque da Redenção. Em 2016, criou sua página no Facebook, que alcançou mais de 6000 curtidas. Em 2018, publicou o livro Mania pela editora Livronovo. Em 2019, ingressou na faculdade de escrita criativa da PUCRS e publicou, pela editora Primata, o livro e quando a flor um sorriso.     




Os poemas a seguir foram selecionados do livro e quando a flor um sorriso (Editora Primata, 2019).




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a tua voz quebrada entre os dentes
quase uma febre por olhos ou unha
hinários ora sob muita compra
com a pele à mostra da queimação
um grito de dor assim o gesto
de repente um adeus aos poucos
com a desculpa das piscinas o animal
o animal seu totem sob marte em vênus
e quando a flor um sorriso
como se um desabrochar onde teu corpo
aos berros como nos jornais
a espuma de barbear
teus ossos esmagados
o que teus olhos entre a cor do tempo
por que não falas sobre isso ou sobre coisa nenhuma


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Julia Bicalho Mendes: Azul Caixão (2019)

Julia Bicalho Mendes nasceu no dia dois de fevereiro, no Rio, quando conheceu o mar. publicou os livros de poesia para um corpo preso no guindaste (Ed. Patuá, 2012), desde quando deserto (Ed. Patuá, 2014) e azul caixão (Editora Primata, 2019). é co-fundadora da nosotros, editorial e da revista saúva. se dedica ao cuidado, à música e à poesia. (e aos delírios. e às partidas.) diáspore há tanto tempo: mistura sotaques, línguas y gêneros. tem apreço por cartas, embora demore a responder: [email protected]




O poema a seguir integra o livro azul caixão (Editora Primata, 2019).




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MAR

afogamento

estes dias os outros estes mares os outros estes mínimos naufrágios
sem variantes possíveis esta poça cálida agora mais nada a chuva um gesto
asfixiante a perda de dias memoráveis já estamos tão fodidos amor não
importa agora a cor da água ali vai a chuva ali derivada de música



‘estos días
los otros
este amor desgarrado por el mundo esta diaria constante despedida’

Idea Vilariño


Marcelo Montenegro: Forte Apache (2018)

Marcelo Montenegro nasceu em São Caetano do Sul (SP), em 1971. Além de poeta, é iluminador de teatro e roteirista de TV e cinema. Com o guitarrista Fabio Brum, lançou o CD Tranqueiras líricas, baseado no espetáculo homônimo em cartaz há mais de dez anos.


foto: Renato Parada



Os poemas a seguir foram selecionados do livro Forte Apache (Companhia das Letras, 2018).




Três pensatos


1.

PENSO naquela única gota
gelada do chuveiro quente.
Nas ilíadas clandestinas
que a febre percorre
até virar suor. Penso nas caretas
que os músicos fazem
quando estão solando.
No meu pai me dizendo
que tudo isso aqui era mato.
Penso na imagem exata
de uma aurora indecisa.
Penso em calços de papelão
para pianos mancos.


2.

PENSO em alguém que, na manhã
do dia de sua morte, desiste
de usar a camisa que mais gosta,
preferindo guardá-la para uma festa
que terá na noite seguinte.


3.

PENSO em você, por exemplo,
largando o controle
remoto e dizendo –
do jeito mais lindo
do mundo – que adora
quando consegue pegar
um filme do começo.

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Clara Baccarin: Vísceras (2019)

Clara Baccarin é poeta do interior paulista. Formada em Letras e mestre em Estudos Literários pela Unesp, publicou os livros: Castelos Tropicais (romance, Editora Chiado), Instruções para Lavar a Alma (poesia, publicação independente), Vibração e Descompasso (crônicas, Editora Laranja Original). Seu livro Instruções para Lavar a Alma recebeu o Prêmio Guarulhos de Literatura 2017. Em maio de 2019, lançou seu segundo livro de poemas, Vísceras (Editora Patuá), contemplado com o edital de poesia do ProaC. Site: www.clarabaccarin.com




Os poemas a seguir foram selecionados do livro Vísceras (Editora Patuá, 2019).


Amanhã meu corpo dói

se não é de danças e de bênçãos

que eu o cubro

Amanhã as ondas devolvem

o que sem sentir com o dentro

eu mergulhei

Amanhã o coração regurgita

onde eu pisei

sem caber todo o meu ser


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