Lilian Sais: acúmulo (2018)

Lilian Sais é escritora, pesquisadora e tradutora de grego antigo. Doutora em Letras, é uma das fundadoras da plataforma de ensino e difusão cultural Literartéria e coeditora da Revista Libertinagem, de arte e literatura erótica. Possui publicações virtuais e impressas no Brasil e em Portugal. Em 2018 lançou a plaquete de poemas Passo imóvel pela Editora Cozinha Experimental. acúmulo (Patuá, 2018) é seu primeiro livro.

 

 

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro acúmulo (Patuá, 2018).

ROUPAS NO CHÃO

(para Jamesson Buarque)

 

o pássaro voa até a janela.
saiu do meu ouvido,
mas as asas permanecem
batendo dentro da
cabeça.

(na luta
a luta
cansa.)

o peso é impossível e
há meses não sangro
como se deve,
pra fora.

– estou grávida
de abismo.

 

 

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Murilo Mendes: A poesia em pânico (1937)

Murilo Mendes, nasceu em Juiz de Fora em 1901 e faleceu em Lisboa em 1975. Um dos grandes poetas do século XX, bebeu de fontes distintas como a proposta modernista brasileira, o catolicismo, o cubismo, o surrealismo e o concretismo. Sua vasta produção artística inclui os livros de poesia: Poemas (1930), Bumba-meu-poeta (1930), História do Brasil (1933), Tempo e eternidade – com Jorge de Lima (1935), A poesia em pânico (1937), O Visionário (1941), As metamorfoses (1944), Mundo enigma (1945), Poesia liberdade (1947), Contemplação de Ouro Preto (1954), Tempo espanhol (1959), Siciliana (1959), e Convergência (1970).

 

 

Realizaremos a retrospectiva de sua trajetória poética numa série de publicações. Confira todas neste link. Hoje, seguem alguns poemas da obra A poesia em pânico (1937).

 

 

IGREJA MULHER

 

A igreja toda em curvas avança para mim,
Enlaçando-me com ternura – mas quer me asfixiar.
Com um braço me indica o seio e o paraíso,
Com outro braço me convoca para o inferno.
Ela segura o Livro, ordena e fala:
Suas palavras são chicotadas para mim, rebelde.
Minha preguiça é maior que toda a caridade.
Ela ameaça me vomitar de sua boca,
Respira incenso pelas narinas.
Sete gládios sete pecados mortais traspassam seu coração.
Arranca do coração os sete gládios
E me envolve cantando a queixa que vem do Eterno,
Auxiliado pela voz do órgão, dos sinos e pelo coro dos desconsolados.
Ela me insinua a história de algumas suas grandes filhas
Impuras antes de subirem para os altares.
Aponta-me a mãe de seu Criador, Musa das musas,
Acusando-me porque exaltei acima dela a mutável Berenice.
A igreja toda em curvas
Quer me incendiar com o fogo dos candelabros.
Não posso sair da igreja nem lutar com ela que um dia me absorverá
Na sua ternura totalitária e cruel.

 

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Matheus Guménin Barreto: A máquina de carregar nadas (2017)

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando em teoria da tradução (FFLCH-USP). Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Em 2018 integrou o Printemps Littéraire Brésilien na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou os livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

 


foto: Isabel Barreto

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017).

 

 

PRIMEIRO

 

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

 

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Edith Derdyk: A pesar, a pedra (2018)

Edith Derdyk – participa, desde 1981, de exposições coletivas e individuais no Brasil (MAM- SP/RJ; Pinacoteca do Estado de SP, CCBB/RJ; MASP, CCSP, ITO, Paço das Artes/SP; Casa das 11 Janelas/Belém, entre outras) e no exterior (México, EUA, Alemanha, Dinamarca, Colômbia, Espanha, França). Contemplada com Prêmios. Bolsas. Residências: 2017. Título Doctora Honoris Causa_17,Instituto Estudios Criticos_Cidade do México; 2015. Edital PROAC_Incentivo à Literatura_Poesia; 2014. Edital PROAC_Livro de Artista; 2013_Can Serrat_Espanha; 2012_Funarte Artes Visuais; 2007_ The Banff Centre_Canadá; 2004_Fotografia Porto Seguro;2002_Bolsa Vitae de Artes; 2002_APCA; 1999_The Rockefeller Foundation_Bellagio Center, Itália; 1993_MAC-USP/Vermont Studio Center_USA; 1990_ Bolsa Fiat_Artes Visuais. Autora: Entre ser um e ser mil – o objeto livro e suas poéticas(organizadora)_Senac; Disegno. Desenho.Desígnio(antologia)_Senac; Linhas de Horizonte: por uma poética do ato criador_Ed. Intermeios; Linha de Costura_C/Arte; Formas de pensar o desenho_Ed.Zouk e O desenho da figura humana_Ed.Scipione, entre outros. Atualmente coordena o projeto Bagagem: caminhada como prática poética www.bagagem-caminhada.com e a Pós graduação Lato Senso “Caminhada como Método para Arte e Educação”_A Casa Tombada

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro A pesar, a pedra (Patuá, 2018).

 

 

 

.

 

flagramos
juntas
pedra e eu
medidas de um tempo injusto
e se o tempo for bomba
rasante
tempo em pedra
lasca fermentada de infinito
falando de pedra
daquela que
daquele lugar me olha
falando de pedra não se escapa
diante de pedaço de pedra
cravado em terra
tal dente enraizado em gengiva
resta esperar
sem desespero
pedra se movimenta
pés de elefante
a passos de tartaruga
pedra gota vulcânica
fragmento que fica

este é um olhar que resta

 

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Marcelo Labes: Enclave (2018)

Marcelo Labes nasceu em Blumenau-SC, em 1984. É autor de Falações (EdiFurb, 2008), Porque sim não é resposta (Antítese, Hemisfério Sul, 2015), O filho da empregada (Antítese, Hemisfério Sul, 2016), Trapaça (Oito e Meio, 2016), Enclave (Patuá, 2018) e O poeta periférico (Edição do autor, 2018). Integrou a mostra Poesia Agora (edição carioca), em 2017. Tem poemas publicados em InComunidade, Mallarmagens, Literatura & Fechadura, Livre Opinião – Ideias em Debate, Ruído Manifesto, Enfermaria 6 e Revista Lavoura. Edita a revista eletrônica O poema do poeta, onde publica originais manuscritos, esboços e rabiscos de poetas e ficcionistas.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Enclave (Patuá, 2018).

 

 

VII.

 

loira dos pés à cabeça
até os pelos pubianos
desde a menarca
menstrua lama

e nela enterra
os seus
nela afoga
os seus
nela chafurdam
herdeiros de um
país que não existe

|enclave|

só quem acredita em herança
não se resigna diante
de tanta água oxigenada.

 

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Germano Quaresma: Mais cento e oito sonetos (2018)

Germano Quaresma nasceu em 12 de abril de 1964 em Caraguatatuba/SP. Com a morte precoce de seus pais, num acidente, mudou-se para Santos/SP, onde foi criado por um tio. Menino recluso, não tinha amigos que não seus livros e os personagens que habitavam. Adulto trabalhou na Companhia Brasileira de Alquimia. Escreve episodicamente e não aparece em público nem dá entrevistas, sendo sua atividade literária gerenciada por seu advogado Manoel Herzog.

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Mais cento e oito sonetos (Patuá, 2018).

 

 

SONETO COLONIZADO

 

Quando alguém morre eu pego e falo: RIP
Nas palestras espero o coffee break
Em todo lanche meu tem milk shake
Inda uso palm-top, token, bip.

Só compro de outlet, meu, não vê que
Sou top, paulistano, e que acepipe
Pra mim só fast food? No Sergipe,
No Rei da Carne de Sol, pedi steak.

Sou low profile, nem vou pra Miami,
Num texto forense eu li sáine dái
Mas tava escrito “sine die”, latim.

Vontade minha é bem gritar: I am
American! – Brazilian o carai! –
Só o que é do Isteites tem valor pra mim.

 

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Marianna Perna: A Cerimônia de Todas as Vozes (2018)

Marianna é, de formação, historiadora e pesquisadora musical, mas também pesquisadora livre do corpo e da voz, com um especial apreço pela poesia, este lugar onde considera habitar toda a dimensão mágica e suas sempre infinitas e renováveis trilhas de volta à voz da alma. Deseja que os poemas possam trazer de volta nosso ser poético oculto e vibrante – re-encantá-lo pelo chamamento dos versos. A Cerimônia de Todas as Vozes (Urutau, 2018) é seu primeiro trabalho solo autoral, uma proposta de transpor as fronteiras de gêneros artísticos.

 

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro A Cerimônia de Todas as Vozes (Urutau, 2018).

 

 

A FEITICEIRA

 

Numa outra hora, vida
distante
que perdura
pela areia
reluz, me seduz.

Ainda vejo os olhos do tempo
vermelhos, congelados.

Sal e mais sal.

Em natureza profunda
lá onde não há chão,
mas se pisa em raízes
se reencontra a carne
de pura seda, eterna
vasta
em território escuro
e sem armadilhas.

Nas trevas, o amor brilha.

 

 

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Ruy Proença: Caçambas (2015)

Ruy Proença nasceu em 9 de janeiro de 1957, na cidade de São Paulo. Participou de diversas antologias de poesia, entre as quais se destacam: Anthologie de la poésie brésilienne (Chandeigne, França, 1998), Pindorama: 30 poetas de Brasil (Revista Tsé-Tsé, nº 7/8, Argentina, 2000), Poesia brasileira do século XX: dos modernistas à actualidade (Antígona, Portugal, 2002), New Brazilian and American Poetry (Revista Rattapallax, nº 9, EUA, 2003), Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (Publifolha, 2006), Traçados diversos: uma antologia da poesia contemporânea (organização de Adilson Miguel, Scipione, 2009) e Roteiro da poesia brasileira: anos 80 (organização de Ricardo Vieira de Lima, Global, 2010). Traduziu Boris Vian: poemas e canções (coletânea da qual foi também organizador, Nankin, 2001), Isto é um poema que cura os peixes, de Jean-Pierre Siméon (Edições SM, 2007) e Histórias verídicas, de Paol Keineg (Dobra, 2014). É autor dos livros de poesia Pequenos séculos (Klaxon, 1985), A lua investirá com seus chifres (Giordano, 1996), Como um dia come o outro (Nankin, 1999), Visão do térreo (Editora 34, 2007), Caçambas (Editora 34, 2015) e dos poemas infantojuvenis de Coisas daqui (Edições SM, 2007).

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Caçambas (Editora 34, 2015).

 

 

ZONA DE CONFORTO

 

se você
viu um prego
em minha testa

e acha
que isso faz
todo o sentido

então viver
é menos perigoso
do que eu imaginava

vamos
pendure
um quadro

 

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Murilo Mendes: Poemas (1930)

Murilo Mendes, nasceu em Juiz de Fora em 1901 e faleceu em Lisboa em 1975. Um dos grandes poetas do século XX,  bebeu de fontes distintas como a proposta modernista brasileira, o catolicismo, o cubismo,  o surrealismo e o concretismo. Sua vasta produção artística inclui os livros de poesia: Poemas (1930), Bumba-meu-poeta (1930), História do Brasil (1933), Tempo e eternidade – com Jorge de Lima (1935), A poesia em pânico (1937), O Visionário (1941), As metamorfoses (1944), Mundo enigma (1945), Poesia liberdade (1947), Contemplação de Ouro Preto (1954), Tempo espanhol (1959), Siciliana (1959),  e Convergência (1970).

 

 

Realizaremos a retrospectiva de sua trajetória poética numa série de publicações. Nesta primeira, selecionamos poemas do seu livro de estreia  Poemas (Dias Cardoso, 1930).

 

 

CANÇÃO DO EXÍLIO

 

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam  gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

 

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Pedro Tostes: Medusa – Na Casamata de Si (2018)

Pedro Tostes é poeta reincidente e insistente. Graduado Nos Rolês com PhD em Pilantropia Cultural. Seus crimes foram mais conhecidos como o mínimo (2003), Descaminhar (2008), Jardim Minado (2014) e sua mais recente contravenção Na Casamata de Si. Foi detido, averiguado e apreendido pelas autoridades por porte e comercialização de livros em prestigiosa Fresta Literária. Com a organização delituosa Poesia Maloqueirista, entre outros crimes, editou a infame revista Não Funciona, que realizou 20 golpes bem sucedidos com mais de 20 mil incidências literárias na primeira década do século. Apesar da aparência dócil e gentil, o indivíduo citado apresenta alta periculosidade. Sua cabeça está a prêmio. Caso o encontre, favor informar às autoridades.

 


foto: Renata Armelin.

 

O poema a seguir está presente em seu novo livro Na Casamata de Si (Patuá, 2018).

 

 

MEDUSA

 

Dias cinzas, dias frios
que espalham sobre as folhas
a fuligem,
não façam desse canto
mero desencanto na luta
do homem contra a Górgona
das engrenagens contínua;
mas brado de guerra
retumbante, retomando
os territórios do sentido.

Pois do alto de arranha-céus
eu vi tuas serpentes
se espalhando pelo solo
– Anacondas sufocando
os pesares nas carruagens
do tempo comprimido entre
as agendas.
Vi homens e mulheres
tomando pílulas de alívio
e felicidade, irmãos
rotos de esperança
buscando restos no lixo
e fazendo companhia aos
ratos, vi cérberos
adestrados latindo contra
inocentes, templos
erguidos ao Céu como
monumentos do caos e em
todos os cantos era
possível ver suas marcas.

As ruas tomadas de
estátuas inertes
caminhando – homens de pedra
no cachimbo se perguntam
na angústia o que sobra
dessa dor – comprovam
que a besta-fera domina
esta paragem
& destrói & destroça
tudo aquilo que encosta
– torna concreto
o desencanto secreto
do ser.

Sigo no contrafluxo
do tempo que sufoca os irmãos
iludidos pela sua imagem
no espelho;
me perco em seus recantos:
Anhangabaú, Carandiru, Tietê
Tucuruvi, Butantã
– nheengatu esquecido nas esquinas.
Eu sou o genocídio indígena,
sou Sepé Tiaraju & Borba Gato
& tenho nas mãos o sangue dos meus antepassados.

Tupiniquim de Araque
não confundo mais o cheiro da selva
com o óxido carbônico de tuas serpentes:
tu, monstro ctônico, cavalgada e cavalgante
sobre nós se constrói
pedra sobre gente sobre pedra
sobre gente sobre gente sobre
pedra sobre pedra sobre gente
soterrando os sentidos.

Por sobre os prédios vejo
Éris dançando ao alvorecer
seu balé diário;
eternos retornos apertados
nas lotações, vias & subterrâneos
do teu Hades;
sextas histéricas na volúpia da busca
vazia, repleta de hiatos buscando
no gozo dionisíaco
a argamassa que preencha;
fins de semana, desespero
do sossego que antevê uma
segunda depressiva
para Sísifo;
pequenas tragédias diárias
traçam retratos de Pompeia.

Quem entra e corrói
no cerne das horas
o fundo do humano?
Quem manda e a
mando de quem
que se mata
de frio de fome
de bala
qualquer irmão?
Por quem
dobram os Sinos
da Sé?

111 chacinas diárias
21 milhões de seres empedernidos
457 telefonemas não atendidos por segundo
232 estupros registrados por mês só na capital
1 trilhão de saudades
12 crises de choro por dia
7 bilhões de angústias
e em cada pessoa
transformada em estatística
eu sinto a sua presença.

O cheiro se alastra
pelo templo que é o corpo
e é o mundo também e logo
ouço o tremor no chão
com o peso dos seus temores
monstro à espreita
teu fino exército frio
engravatado
tecendo as mordaças,
vidas desperdiçadas
na miséria ou no luxo;
mas se Perseu sou eu
com que espada é que luto?
tenho apenas minha pena
de ser torto e ter devir;
era pra ter escudo
mas nos deram espelhos
eis que encaro seu reflexo
e vejo a face da besta:
era eu que ali estava
parado atrás de mim.

Cada fera tem seus mistérios
e a ti não deveria olhar
por não saber o que veria
e já que não te enxergo
me guio pelas sombras
e pelos ecos do teu ser;
não se sabe se é sina
ou ilusão a simetria entre
o homem e a besta,
mas quando o perigo
se aproxima não hesito
e arranco a cabeça
da Górgona enquanto
caio morto no chão.

E tudo que era você
e aquilo que te cercava,
suas raízes podres que daqui
se espalhavam lentamente
definham e desmancham
demolem cada alicerce
de tua torta estrutura.
E a chuva que desaba dos céus
alaga tuas ruas e esquinas
submersa a cidade desafoga
e das cinzas dos teus dias
surgem flores de Afrodite
que saúdam o novo tempo
mesmo no cheiro de podre
pois é da morte que surge
vida nova em teu solo.