Verônica Ramalho: Três Línguas (2021)

Verônica Ramalho tem dois olhos míopes e uma língua lépida nascidos em Santos, litoral de São Paulo, em uma segunda-feira de tempestade em 1987. Formada em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, dirigiu curtas-metragens e trabalhou por dez anos como cenógrafa para televisão, teatro e cinema. Atualmente é tradutora e escritora. “Três línguas” é seu segundo livro, contemplado pelo edital de fomento ProAC.


Os poemas a seguir foram selecionados do livro “Três línguas” (Córrego, 2021).



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Guilherme Pavarin: o maquinário fantasma (2022)

Guilherme Pavarin nasceu em São Paulo em 1987. Estudou Letras na Universidade de São Paulo, onde faz mestrado em Literatura Brasileira.



Os poemas a seguir foram selecionados do seu primeiro livro o maquinário fantasma (Urutau, 2022).



CÂMARA ESCURA

Como a luz da estrela já morta,
cada coisa caminha
para o seu contrário.

O macaco se torna jaula.
Os frutos laivam as máquinas.
E os desertos clamam
línguas e dromedários.

Por isso, me diz o espectro,
não dê ao destino tanto gosto.
Quando pensar ter em mãos
sua caveira, o mais fulcral dilema
talvez lhe ocorra
de tantas prudências
ter preterido outros opostos.

É desse espanto
(em tropeços por litorais
os crepúsculos em riste)
que entendemos cada tendão
um sustentáculo de dois
ou mais eclipses.

Por isso cante.
De todas as artes,
alguma lhe será inútil
e com sorte sua ruína.

Apenas cante, ele assobia.
Cante, cante as fraturas
dessas túnicas de ossos.

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Claudio Daniel: Cantigas do Luaréu (2022)

Claudio Daniel, pseudônimo de Claudio Alexandre de Barros Teixeira, é poeta,
romancista e professor de literatura. Nasceu em 1962, na cidade de São Paulo (SP).
Cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Portuguesa na Universidade de São
Paulo (USP). Realizou o pós-doutoramento em Teoria Literária pela Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi diretor adjunto da Casa das Rosas, Espaço
Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, curador de Literatura no Centro Cultural São
Paulo e colunista da revista CULT. Atualmente, Claudio Daniel é editor da revista
eletrônica de poesia e artes Zunái, do blog Cantar a Pele de Lontra
(http://cantarapeledelontra.blogspot.com) e ministra aulas online de criação literária no
Laboratório de Criação Poética, curso realizado à distância, via internet. Publicou
diversos livros de poesia, ensaio e ficção, entre eles Cadernos bestiais: breviário da
tragédia brasileira, Portão 7 e Marabô Obatalá, todos de poesia, o livro de contos
Romanceiro de Dona Virgo e o romance Mojubá.



Os poemas a seguir foram selecionados do livro Cantigas do Luaréu (Arribaçã, 2022).




O BOTO

peixe-cachorro
das águas
claras do rio
belo-belo
como a espuma
das águas
claras do rio
a lua nova
sobre o capim
molhado
a flor vermelha
nos cabelos
da guria cunhã
ele, o pira-
iaúra
vem das águas
fundas
do igarapé
com cara
de macho
pintudo
ele, o piraiá-
guará
vem das águas
fundas
do igarapé
com ares
de moço
bonito
vai para as festas
onde dançam
as cunhãs
bebe cachaça
sob os luares
onde dançam
as cunhãs
ele, o peixe-cachorro
das águas
claras do rio
agora é moço
bonito
e dança as danças
que dançam
as moças-cunhãs
cunhatãs
leva as moças
para a mata
lá bem perto
das águas
claras do rio
e dorme com elas
sob os luares
verdes da mata
lá bem perto
das águas
claras do rio
e faz amorzinho
uma, duas, três,
quatro, cinco,
seis vezes
até voltar
a ser bicho
boto-tucuxi
peixe-cachorro
golfinho encantado
das águas
claras do rio
e as cunhãs
agora prenhes
choram, choram
lágrimas de água
que somem
nas águas
claras do rio.

2020

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Isabella Bettoni: Não tentar domar bicho selvagem (2022)

Isabella Bettoni nasceu e vive em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde atua como advogada feminista, pesquisadora e escritora. Seu primeiro livro, Brincando de fazer poesia, foi lançado em 2008 pela Editora Uni Duni com poesias para crianças em fase de alfabetização. Participa de cinco antologias, com destaque para Antes que eu me esqueça: 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021) e Coleção Desaguamentos Vol. I – Poesia de autoria feminina (Editora Escaleras, 2021). Além disso, integra a equipe do Fazia Poesia e tem textos publicados em portais e revistas
como Ruído Manifesto, Tamarina, Mormaço, Declama Mulher, Revista La Loba e Revista Minha Voz. Está no Instagram como: @bellabettoni.

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Não tentar domar bicho selvagem (Quintal Edições, 2022) em pré-venda pela Benfeitoria até o dia 03/08/2022 neste link.


NÃO TENTAR DOMAR BICHO SELVAGEM


Primeiro
Circule lentamente a solidão
Provoque-a
E depois corra, de preferência sem sapatos,
Mesmo sabendo que ela
A solidão
é muito mais rápida
do que você 
Então mostre
à solidão
os dentes que rangem à noite
Mostre a língua
Áspera
Rosada
Selvagem
E um pouco seca
Permita-se ser capturada
Pela solidão
E quando atravessada e presa
quando perceber: sem saída
Não há, não há como fugir (de si)
Vença pela entrega
Mergulhe
Mesmo com medo
Não há não há como fugir
Por isso,
Seja riso
Aberto,
alto,
frouxo,
leve,

E tudo bem se o riso for também um pouco triste

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Rebecca Loise: Engordei o sol noturno (2022)

Rebecca Loise nasceu em Dourados, Mato Grosso do Sul, em 1989. É escritora, psicóloga, psicanalista, artista da cena e do corpo. Graduada em Psicologia e mestra em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente atende em consultório on-line, é colunista do Jornal Folha de Dourados, atua, performa e dedica-se à área de pesquisa e de criação artística em Arte & Psicanálise. Engordei o sol noturno (Urutau, 2022) é seu primeiro livro. Site: www.rebeccaloise.com



Os poemas a seguir foram selecionados do livro Engordei o sol noturno (Urutau, 2022).


HÁ UM NÓ NA GARGANTA DO SILÊNCIO

Se eu pudesse
entregar a você
o meu silêncio
com as mãos
em concha
,
seríamos
nós
um
oceano
pacífico
.
Mas

um

na
gar
gan
ta
do

Silêncio
!
É o grito
do místico
suicida
.
Em pleno mar
de ondas bélicas
afogou-se
pela âncora
de um navio-fóssil
.
Ninguém
nunca mais
disse nada
no enterro
.
A lápide
gravada
na pedra da
costa da praia
.
Pescada
pela dor
o aviso da
garrafa
:
Silêncio
é a palavra
que mais dura
na boca
.

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