Antonio Carlos Floriano: Post Provisório (2018)

Antonio Carlos Floriano nasceu em Itajaí, Santa Catarina, em 1961 e tem os seguintes livros de poesia publicados: Podre Flor (1988), Celacanto (1989), Cadernos do Japão (Massao Ohno, 1999), Poesia (2002) e Post Provisório (2018). Além destes, publicou livros na área de literatura infantil (Um Cavalo para Eduardo, Vento no Catavento e Crianças de todas as cores) e de fotografia (Carpintaria das Ribeiras do Rio Itajaí Açu e Retratos).




Os poemas a seguir foram selecionado do livro Post Provisório (Espelho D’Alma, 2018).




COMO SE APRISIONA UM RIO PARA SI



como se aprisiona um rio para si
não há moirões na água
arame para circular uma cidade

apenas um poço de nuvens
engolidos nos mergulhos
nas voltas infindáveis da geografia

onde encontrar o calor dos outonos
as sombras desvanecidas
a pouca cor dos trapiches adernados

como amarrar um navio fosse um bicho
segurá-lo na corrente contra o terral
se a noite se esconde na luz do farol

se a noite sussurra nas tralhas das redes
a solidão dos beliches sem ar
da tinta envenenada manchada de mar

que se tome um banho de água doce
para prender o rio sob a pele do rosto
se tirar das mãos as escamas das unhas

para se prender o rio na memória do poema
feito um navio na geografia da cidade
é preciso inventar um mapa no coração


TUBARÕES SOBRE CABEÇAS


no aquário de shinagawa
tubarões nadavam sobre minha cabeça

aproveitava o pouco de um dia
quando tinha um dia para respirar um pouco

e o que fazia além de respirar?

somente um morto teria melhores histórias
caminhando por tóquio em shinagawa

onde scorts fingiam gueijas
 homens de negócios douravam rolex

onde tailandesas eram estrangeiras dentro do oriente
adoravam o desenho de meus olhos

me serviram pratos desenhados do sião
seus corpos minguados

a tarde em shinagawa minguava de ausências
 os tubarões passeavam sobre minha cabeça



UM BARCO FORA D`ÁGUA



um barco fora d’água é um animal sem patas
por fora mostra o oco de dentro
de dentro a feitura do que aparece fora
 sobre os jazentes de ferro se assenta
sobre a espera corrente do rio em suas costas
espera a corrida da carreira no rio que o assente

um barco pronto é um animal perene



HUMAITÁ



há um caminho de bosque
perto do humaitá
árvores antigas se abraçam
trançando sombras iluminadas
nas fachadas dos casarões vazios

há uma alegria ruidosa e juvenil
na gare do metrô de botafogo

contra tudo e contra todos
o rio de janeiro continua lindo.


AS MENINAS CHINESAS



as meninas chinesas vestidas de amarelo
cantam a cantiga
na plantação verde de chá

aprendo teus gestos passageiros
nos teus olhos posso ver
meus próprios sonhos
nos teus sonhos posso ver
o mundo inteiro






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