Bruna Mitrano: não (2016)

Bruna Mitrano (1985) nasceu e vive na periferia do Rio de Janeiro. É escritora, desenhista e articuladora cultural. Em setembro de 2016, publicou seu primeiro livro, o Não, pela editora Patuá.
 
 
bruna mitrano
 
 

*
 
na estrada de terra
da cidade vazia
a criança preta empunha um pedaço de pau.
ela está nua e vê-se um corpo tão prematuro
quanto ruínas.
a boca intumescida da criança preta gutura
morte ao rei!
e na aridez inalcançável dos pés descalços
resiste
a criança tão criança e velha,
sozinha e livre –
o sino da igreja abandonada toca todo dia na hora errada.

 
 

*
 
ela pediu pra eu não enlouquecer
parei de tomar os remédios pra tentar ser gente
mas uma chuva forte caiu
era janeiro
e me escorreguei
perdi o senso
disseram
é temporário
os tremores noturnos
a matriz de uma ânsia descabida
os rostos na janela
todas as noites
os rostos que catequizam as janelas
nas casas sem muro
não há o que se ver que não sobrecarregue a carne
o corpo ainda sente
curva-se ao inevitável
tomba no meio da rua e conclui
não se dá as costas pra morte
há sempre um diagnóstico
preto no branco
vou morrer de tempo ou
vou fazer o quê?
re:___________________.

 
 

bruna mitrano

 
 

VERÃO

 

na calçada, ela e as crianças. calor de cozinhar lá dentro, o ventilador parou. o menor todo torto no colo, mosquito pega. final do ano, ah, ventilador de teto. teto daquele jeito, vazamento na casa de cima. os homens consertando. corta a unha da menina, tesoura de costura. copinho descartável entre as coxas, água oxigenada e amônia. o vizinho chega, pão e a margarina, foi rápido, de bicicleta. caneca descascada no chão, café, garrafa térmica amarelenta, café forte. o marido parece até que sente o cheiro de longe, tá molhado de mangueira, bebe sem açúcar, de pé, copo americano. sempre magro, o marido, ela não entende. o maior solta pipa. céu colorido, vento bom. os moleques da rua de trás cortam todo mundo, o maior xinga sozinho, ela grita ele, ele tem que comer, essa merda custa dinheiro. o maior acena e ela ri, um dente faltando, vai ao dentista qualquer dia, desdentada não consegue emprego, ela é boa de serviço. a espuma branca dentro do copo, ela esfrega na perna. a menina descoloriu o cabelo, faz sucesso, já namora. a gente cria filho pro mundo, a vizinha diz. ela tem medo, deus proteja, tanta desgraça. o menor dorme, mamadeira na mão, suco de groselha, pinga no peito. é grande pra mamadeira, não larga, vai ficar bicudo. baixa o sol, a cigarra grita, hora dos cupins, corre pra fechar a janela. suor. escorre na frente da orelha, salpica o buço, mela o sovaco, molha até o cóccix. cheiro de café, cheiro de suor. final do ano, ah, ventilador de teto.

 
 

*
 
tem espinhos na língua.
o encontro é quando lambe o racho da minha sola.
até que o primeiro lapso nos levante às pressas –
ensacamos entulhos com sutilezas de rancor.
nada que despossuímos sobrevive ao que gestamos.
é nesse escuro lúcido que soldamos as carnes?
sim, estaremos sempre sozinhos –
guardo nossos segredos com muitas mãos,
seu sangue seco nas minhas coxas.

 
 

bruna mitrando não

 
 

*
 

deito, abro as pernas em pássaro e curvo a cervical pra, daqui, te ver. no centro, os lábios úmidos do animal todo boca devoram a sua imagem diminuída pela máxima distância suportada – sobre o corpo inerte, não obstante o grito esmurrar a película que encobre o peito, no golpe extático da pequena morte, dançam o líquido branco espesso e meus muitos coágulos – emaranham-se, escorrem. as mãos, não soltamos.

 
 

*
 
firmava os pés no chão enquanto varria, mecanicamente, os cacos de vidro. era a primeira vez que não se arrependia dos gritos, do murro na porta, de mais um copo atirado contra a parede. estava sozinha, reconhecendo suas frustrações, a parcela de si não compartilhada, e já não lhe importava o lado de fora – algo haveria de se perder, sempre, no vácuo entre duas mãos sobrepostas. em minutos, um vizinho solidário invadiria sua sala e, com tiques de pardal, exploraria cada canto, procurando marcas da Louca, até finalmente perguntar tudo bem? e ela responder, sorrindo, que sim.

 
 

bruna mitrano

 
 

Primata

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