Fabio Weintraub: Falso trajeto (2016)

Fabio Weintraub é autor dos livros de poemas Sistema de erros (Arte Pau-Brasil, 1996), Novo endereço (Nankin/Funalfa, 2002), Baque (Editora 34, 2007), Treme ainda (Editora 34, 2015) e Falso trajeto (Patuá, 2016). Psicólogo e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, realizou pesquisa sobre representações do espaço urbano na poesia brasileira pós-1990. 
 
Os poemas a seguir foram selecionados do livro Falso trajeto (Patuá, 2016), antologia com cinquenta poemas, sendo dez inéditos.
 
 
 

PRAZER

 
 

mesmo deste jeito
deitada de bruços
com a luz apagada
a salvo dos chamados
surda ao telefone
à campainha
insensível aos apelos e desvelos
dos que me cercam e alimentam
mesmo engolindo rápido
sem dentes
a refeição como quem
se livra de um compromisso
mesmo esquecendo
o nome do presidente
o dia da semana, o mês do ano
o nome do lugar
em que você trabalha
da rua onde eu moro
da moça que me ajuda
mesmo me libertando
das poucas obrigações
(esticar as pernas
escovar o cabelo
limpar a merda
que às vezes escapa
por causa do remédio novo
pra não perder a memória)
mesmo cada vez mais distante
da oportunidade
de transmitir um legado
a quem me assiste e sucede
nesta comédia cujo roteiro
é refeito a todo momento
por exigência
do desprezível público
que aplaude sem critério
e ri nos momentos mais pungentes
mesmo agora, aqui
fazendo essa pontinha
aguardando de novo
a minha deixa
mínima
antes que caia o pano
e no programa meu nome
seja corrigido
ainda assim, eu aqui
imóvel no escuro do escuro
com voz consumida
nisso tudo ainda sinto
um grande
enorme
prazer
 
 

 

O QUARTO
 
 

feito alguém contra você
do outro lado da mesa
 
quando menos se espera
na fila do supermercado
some o carrinho de compras
a sala se enche de neblina
 
coisas pequenas aumentam
como ferida que volta
pelas costas
 
enquanto o retalham e costuram
sob o pretexto da cura
reformam seu escritório
mudam tudo de lugar
 
você retorna
vê tudo mexido
chega mesmo a pensar
se de fato não morreu
 
é assim que o quarto ficará
quando você se for

 
 

DENTRO DA PLACENTA
 
para Matheus Nachtergaele
 
 
às vezes é quase tão difícil
como reemplumar o passarinho
que seu gato depenou
enquanto você falava ao telefone

outras vezes, no entanto
lhe é dada a oportunidade
de oficiar o rito
decifrar o enigma
criar por duas horas
a ilusão de que você
está no comando
de que é capaz de ordenar
os símbolos da vida
por conhecer as palavras mágicas
por saber dançar
dentro da placenta

geralmente eles torcem a seu favor
vieram para oficiar junto
mas nem sempre você dança
no tempo exato
nem sempre acerta
a pronúncia da fórmula

então a loucura do mundo
os requisita novamente
eles regridem
emburrecem
tornam-se cruéis:
estão ali para julgá-lo

porém difícil mesmo
é emprestar a voz
a quem saiu de cena
entrar no tom
de quem cortou a garganta
e secou todo o leite
do peito e dos colhões
falar em nome
de quem se calou
ou partiu antes da hora
por fastio ou cagaço
quando as penas já se foram
e não há filtro que corrija
a tristeza do obstetra

 
 

MAIS MAGRO

 
 

mais magro
meu amigo está mais magro
volto a encontrá-lo
dois ou três verões mais tarde
e chego mesmo a dizê-lo:
você está mais magro
problemas de intestino…

responde-me esquivo
… já estive pior, agora
voltei a engordar

não peço detalhes
mas vejo o ombro mirrado
entre as alças da regata
evito tocá-lo
pois a mera proximidade física
parece estranha agora
que meu amigo está mais magro

novamente juntos
caminhamos pela orla marítima
eu lhe recito algum verso
ele me ensina outro insulto
e há quase alegria de trégua
não fosse o fato
de ele estar mais magro

se ainda ontem tocassem
os telefones insones
na barra da madrugada
e meu amigo dissesse
palavras de testamento
eu sairia correndo
para deitar-lhe compressas
na testa já repartida

se fosse eu o afogado
dentro da onda invisível
de bílis, lua e silêncio
ele pagava o resgate
limpava o sal de meus cílios
me devolvia em segredo
sobre a toalha mais limpa

mas hoje estamos exaustos
há um dreno em nossa bondade:
minha boca só tem dentes
e meu amigo
está mais magro

 
 

MANGA

 
 

a manga chupando o cão
não deixou um só fiapo

não era lua cheia
nem sentiam saudades
os ossos enterrados pelo cão
em pleno quintal
na noite anterior

 a manga não era rosa nem espada
mas chupou
chupou o cão até o caroço

 a manga era carlotinha
e recendia com violência
machucadora, cheirava alto
derrubando os sentimentos do cão

a manga chupando o cão
jogou os dentes sobre o telhado
mas abriu toda a gengiva
sobre o meu peito

 
 

QUANDO O AMOR RECUPERA A VISÃO

 
 

tão logo alguém se aproxima
joga-se no chão
finge ter sido espancado
roubado até o último vintém

se o ajudam a erguer-se
abraça a alma caridosa
esvaziando-lhe a bolsa

o maligno o arrasta
através do fogo
através do vau e do redemunho
do lamaçal e do charco
põe facas em seu travesseiro
ratoeiras em sua sopa

ele também
não faz por menos:
bebe pinga com o cachorro
joga dados viciados
cede o corpo a proxenetas

é fustigado nos albergues
nos hospitais públicos
e posto na rua a pontapés
quando o amor recupera a visão