Gustavo Jugend: Arabesco (2018)

Gustavo Jugend nasceu em Curitiba e se graduou em Filosofia na UFPR. Lançou seu primeiro livro de contos e poemas Arabesco (Urutau, 2018). Atualmente cursa doutorado e trabalha em novos versos. O livro Arabesco pode ser adquirido aqui: http://editoraurutau.com.br/titulo/arabesco



Os poema a seguir foram selecionados da obra Arabesco (Urutau, 2018).



UM GATO


Há um gato. Um gato que não há.
De unhas compridas afiadas no estofo das minhas costas.
O gato não há.
Sobe e desce pela minha coxa. Espreguiça-se na minha
barriga e dorme. Ronrona e some. Há um gato.
Acorda amanhã em minha nuca. Retorce o dorso sobre meu
pescoço e me encara.
Há gato. Gato não há.


METAFÍSICA II


Poderia ser do polo
o reverso,
ou do sujeito
em sono profundo,

o corpo como acidente oriundo
do porte eterno
que jaz imerso.

Poderia ser a
lei do universo,
a regra que funda o mundo
tonalizando
a todo segundo
um profundo meditado interno.

Mas jamais existiu
tal inferno
de essência a reger nosso humor
e a pôr toda vontade abaixo.

Existe somente o externo: a alma não existe
nem abaixo;
o corpo,
o corpo pende para cima.

CHUVA


Já não sei se chove todo dia ou se o clima só conjuga singular.

Se é frente fria, se é El Niño ou o escambau, não sei se é temporal ou se é encharco na retina. Não sei se sei nadar, mas devo lembrar (já que é um verbo tão cretino). Já não tenho mais domínio, já não conto mais os dias, só sei que não sei chuva. Não sei mais se a água cai, ou se são dias sem te ver, se é El Niño na retina ou frente fria de saudades. Já não sei a cor do céu, já não sei mais dos seus olhos, ou se se enxuga lá algures. Já não sei mais do seu passo, já não sei mais de um abrigo, já não mais jamais chovia.

Já não sei se chove todo dia, ou se é saudade condensada que me cai.

Primata

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