Jéssica Iancoski: A Pele da Pitanga (2021)


Jéssica Iancoski é contista infantil, poeta, editora e criadora de conteúdo digital. Ao todo, seus projetos somam mais de 1 milhão de acessos (Spotify e YouTube). É autora de “A Pele da Pitanga” e “TeXtosterona: do X à neutralidade dos homens”. Participou de diversas antologias e revistas nacionais e internacionais (Argentina, Colômbia, Espanha, Galiza, Peru, Portugal). É fundadora do “Toma Aí Um Poema” — maior podcast lusófono de declamação de poesia. Para Ernani Buchmann, presidente da Academia Paranaense de Letras, a poesia de Jéssica Iancoski, em “A Pele da Pitanga” é um manifesto e “inaugura no país uma poética raiz, algo inusitado”.


Os poemas a seguir foram selecionados do livro “A Pele da Pitanga” (Toma Aí Um Poema, 2021).


MAMA NA TETA DA MATA


quem desmata
mata não só a mata

mata e ninguém fala
mata e o estado cala

matam a mata
matam à bala

a boca brasileira cala
a cara brasis nata

a boca branca bebe e
mama na teta da mata

a boca branca mata
e mama na teta da mata

mata e mama
na mama da mata

mama e mata
— é mamata.



ADVÉRBIO

Para Belise Campos


a palavra é avermelhada
talvez carnívora e pouco reflorestada
vale mais extirpada
da terra do âmago
e do ventre esmirrado dos homens

a palavra é servida crua e explorada
ao pé de mesas de paubrasília
maracutaia estripada
estrupício estropiado

solimões, urucum,
cachaça de jambu
colorau guaraná
buriti pupunha
pirarucu tucunaré

a palavra é tinta genocida
e desmancha facilmente o advérbio
pororocas levantando sangue de verbo
jorrando brasis sem modo,
com intensidade, lugar e tempo
e demasiada negação desmatada,
macunaíma desvairada.



TORRA TORA


ora-ora ora-ora
não é de agora
o agro é ogro e
demora derrama
gora e jorra tora
derrama rama e
torra e rouba flora
e fauna chora e
ora-ora ora-ora

o agora mata
o agro mata

mata a mata
mata o mato
mata a mátria
mata o ato

ora-ora ora-ora
o agro é pátria
e demora gora
e jorra tora

torra tora torra
tora torra tora
e ora-ora —

terra-mãe chora



HERANÇA


toda herança
faz errança

é história
mal contada
de legados
levantados

em cima
de ossos
memórias
e calos de
pés
soterrados
pela
língua
calada


Primata

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