Jhenifer Silva: no olho da mata virgem (2021)

Jhenifer Silva (1986) nasceu em Mirassol, no noroeste paulista, e vive em Barão Geraldo (Campinas) desde 2013. É mestra em Teoria e Crítica Literária pela Universidade Estadual de Campinas, onde desenvolve tese de doutorado na mesma área. Além de pesquisadora, trabalha com formação de professores e escreve poemas. Tem textos em revistas digitais e impressas, entre as quais estão Lavoura, Garupa e Felisberta. Seu livro de estreia, no olho da mata virgem (2021), saiu pela Ofícios Terrestres Edições. E-mail para contato: [email protected].


Os poemas a seguir foram selecionados do livro no olho da mata virgem (Ofícios Terrestres Edições, 2021)



ABRINDO CAMINHO


na estrada recém-aberta
esta lança esgarça o caminho
os galhos o rio toda a miríade
cruza o interior da folhagem densa
onde apenas bichos passaram durante
anos. algum tempo depois encontra o teu peito
fechado como o matagal. a geleira imediatamente
se derrete e peixes engaiolados saltam para as margens do rio
você alonga as sobrancelhas abre um assovio fino
_ demorou para os peixes mergulharem de novo
o mato volta a crescer, cobrindo toda ferida
foi um assovio ou alguma coisa foi dita?
despreocupada com os pés na grama
rio dos homens só mais uma vez
enquanto treme o meu corpo
inflado por aquele assovio
na navalha do silêncio
ouço trovões grunhi
dos ilumina-se céu
aprendo a falar



DAS CONSIDERAÇÕES



bem sei que ninguém compõe poemas
como um velho cego
e que nenhum éden uiva nos ossos o amor
sei que todo cheiro exalado do ventre
cheira a cimento e a sede
sei que vejo, meu filho, um moleque
descalço com o cajado dos desejos
a dançar é a serpente enfeitiçada
pela canção jamais composta:
dos dedos — segredos
das íris — suor
sei que outras histórias mais
se aniquilarão na grande selva
e que nada poderá impedir
outra coisa não me resta então
que esculpir o nome das ervas
todas as mil que conheço
no dorso dos teus dentes brancos


O VENTO



o vento nas folhas
faz mexer poemas
então adormecidos

escuto a fim de colher
o farol desobediente
de todas as plantas

a língua atenta ao som
estuda o quintal até sair
gasta: inteiramente suja

entende com precisão
a dimensão do corte
a expressão da carne
a vala funda na qual
está a palavra medo


ALGUM NOME PARA ISTO



chamar esta mata de planta ou de casa
plantar esta casa e chamá-la de canto
de reza de estrada de uma entidade qualquer
nem se termina a planta e já é uma casa onde se habita
na brancura ofuscante e indelével das paredes
na ausência de vigas e teto — o pranto da floresta
encontra as migalhas hostis da mísera existência
tão indiferentes aos privilégios da luminosidade
meus troncos se cobrem de lábios mui quentes
dos quais saem duros e belos ruídos
cada melodia estilhaça tudo em mil
caindo-se a terra, podemos existir

Primata

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