Germano Quaresma: Mais cento e oito sonetos (2018)

Germano Quaresma nasceu em 12 de abril de 1964 em Caraguatatuba/SP. Com a morte precoce de seus pais, num acidente, mudou-se para Santos/SP, onde foi criado por um tio. Menino recluso, não tinha amigos que não seus livros e os personagens que habitavam. Adulto trabalhou na Companhia Brasileira de Alquimia. Escreve episodicamente e não aparece em público nem dá entrevistas, sendo sua atividade literária gerenciada por seu advogado Manoel Herzog.

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Mais cento e oito sonetos (Patuá, 2018).

 

 

SONETO COLONIZADO

 

Quando alguém morre eu pego e falo: RIP
Nas palestras espero o coffee break
Em todo lanche meu tem milk shake
Inda uso palm-top, token, bip.

Só compro de outlet, meu, não vê que
Sou top, paulistano, e que acepipe
Pra mim só fast food? No Sergipe,
No Rei da Carne de Sol, pedi steak.

Sou low profile, nem vou pra Miami,
Num texto forense eu li sáine dái
Mas tava escrito “sine die”, latim.

Vontade minha é bem gritar: I am
American! – Brazilian o carai! –
Só o que é do Isteites tem valor pra mim.

 

SONETO DO CORNO ERUDITO

 

Doce Deleuze no entorno
Derridá, a mulé dá memo
E na testa fica o Adorno
E chora o marido, um emo

Na cabeça dele, o Demo
Planta coisa, põe no forno
A vingança. Polifemo
Ciclope de um olho, e corno.

Einstein só relativiza:
“Isso é coisa que Botero
Na sua cabeça, é brisa.”

Mas Spinoza sustenta
Que “É chifre sim, lero-lero,
No cu dozoto é pimenta.”

 

LIRA BRASILEIRA

 

Esta noite eu só queria a ti, doce amigo
Abraçar, no sofá, tua forma feminina,
Correr pelo teu pau meus dedos, eu nem ligo
Se me acharem estranho – esta é a nossa sina.

Gemes se teus cabelos eu puxo, me anima
A suave melodia que faço contigo
Deixei todos na festa e corri cá pra cima
Precisava te ver, tocar-te… – mais não digo.

Eu me cansei do mundo e das pessoas, pois
Nada traz mais prazer que ficarmos, nós dois
Nestas epifanias de som e paixão.

Dois irmãos, dois meninos, verdadeiro incesto
Se é pecado, que seja, vai ver que eu não presto,
O meu melhor amigo és tu, meu violão.

 

TIO SUKITA PEGADOR

 

Num mim troco por minino
Que toma bomba e faz ferro
Sou cabrito bom, num berro,
Mulher, levo ao desatino.

Num cheiro nunca, e não erro
(Quando muito enrolo um fino
Pra fumar ca mina). Um mino
Feito eu, bacana e sincero,

Num precisa de Red Bull,
Só paçoca e caracu
Batida em ovo de pata.

Esses pleiba de energético
É tudo uns fraco e morfético,
Mina nenhuma eles cata.

 

BELA ESPANCA, A PRIMADONA SONETISTA

III

                                             Homem é feito vinho

 

Meu bem, meu bem, que merda tu fizeste
Cagaste ao pau, falaste além da conta
Eu fui feliz de ser tua Pocahonta,
Pater Angelicus, Baphomet est.

Nós tava indo tão bem, e as nossas conta
Tava paga, nós tava rico, peste,
Por que tu não é mudo, cafajeste,
Falou demais, que merda tu me apronta!

Bem que mamãe falou, tu era velinho
Mas respondi: “um home é que nem vinho”
E ela virou, falou que eu tava louca.

Mas parou e pensou, que eu tava certa,
É vinho mesmo, até que eu era esperta:
Fica melhor cuma rolha na boca.

 

 

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