Maria Carolina de Bonis: passos ao redor do teu canto (2015)

Maria Carolina De Bonis, São Paulo, nasceu em 20 de dezembro de 1982, estudou literatura e escreve para mudar os caminhos por onde passa ou perder-se em alguns deles. Publicou o livro Passos ao redor do teu canto pela Editora Patuá na Coleção Patuscada (2015), projeto premiado com o ProAC.
 

 

Os seguintes poemas a seguir foram selecionados do livro Passos ao redor do teu canto (Editora Patuá, 2015).

 

MONOTONIA SUBMERSA

Entrar no teatro pelas portas dos fundos
Esperar até que as cortinas se fechem
Sentar-se numa cadeira detrás do palco
Baixar os olhos e soletrar um verso
Heroico com as formas de adeus.

Mas o que queríamos era antes acreditar
Saber que detrás do palco se encenam outro
Espetáculo: vida, suas
Guelras sanguíneas em separações

Entrar pela casa sem que a soleira
Conte-lhe a presença de seu ranger noturno
Os objetos tão presentes querem ser olhados
Pela ausência e ter nome de pertencimento.

A carnadura dos móveis estala
É um estar em si
Que já é de si esse saber
De estar inteiro
Diante de nossa presença

Mas o que queríamos eram seres abissais
Abismos, no corpo
Filamentos imemoriais
Que sem voz estalam

Feito a lenha seca, o fogo da lareira
Essas coisas falam e destravam
Os porões da memória

Ir até a parede de azulejos frios e suspirar
Roucamente sem que fosse você
Que pronunciasse a perda
Antes que os olhos estivessem partidos.

Entrar pela casa como se fosse todo dia.

 

DECOMPOR

A fruta apodrece (não que eu
assim quisesse) como vão de
escada e escuridão. Vivo
onde as moscas contornam
minha ausência. Faço de mim
escambo com o vento. Estaria a dois
passos do que tem sido.
Desfaço na estrada e vou fincando
em cada poste abandonado em cada curva
desvio a voz que em mim fala
para decair na tarde verde vegetal
e não querer mais nada da vida.
Se assim se mostra no que decompõe
a essência, deixo ao que o coração abra
em tempo do que regressa
o sumo maduro a colher o sêmem
entrar dentro da ferida das coisas
saber de que material são feitas e conter
sua substância – expor sua ferida em um trauma
aberto lá onde dói a fibra do fino fio
corrói-se a essência sem luz.

 

UMA ESPÉCIE DE PERDA

Foi-te uma espécie de perda
Começo como se perderam os dias
De uma infância. Falo-te assim como
Quem se despe do corpo e chega
Recém-nascida. Aprendestes a respirar

Debaixo d’água e anos depois
Quando as folhas mudaram as estações
Mesmo emergisses dos ares
Para pousarmos em teu abstrato
Tudo que fosse relativo –

Os segredos encolhiam-se nas areias
– o mar inteiro dentro da voz – Se venho
De uma espécie terrestre, é por conhecer a terra
Se me confundo com as ostras, é por guardar
Demasias de sentimentos. Mudos e silêncios.

Uma longa história de pirâmides e desertos
Furtos às montanhas. Mas nas ruas todos seguiam
Acontecimentos decadentes, quando a ciência morria
Outra espécie de perda, você disse
Nos fica uma assombração
Uma disritmia respira sobre os pântanos
Essas botas enlameadas a efêmera partida
Hoje, voltaríamos com as chaves para a casa
Pela rua do sol da infância.

 

 

PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO

Os amores se insinuavam aos meus passos,
Caminhava cegamente?
Não, caminhava pelo gelo
Com medo de reaver escorregadias
Espécies de perdas secretas.
Só sabia da pedra esverdeada do olhar
Que em mim diriam: forneça as provas.

Não, seria essa ou aquela, mas
Sei que pareço a mulher de todas as noites em insônia
Em cima do palco decifrando um vocabulário estrangeiro
As mulheres que sonhavam em outra língua.

Pelo olhar do Imperador
As solas secas dos pés rabiscando
Os territórios da volta,
Voltaríamos para a casa seguros.
Voltaríamos para a casa seguros?
Haveria volta nessa mesma hora
Haveria casa nessa mesma hora.

Enquanto um grupo numa sala vazia
Fornece provas sobre
O turismo das regiões terrestres
Fazem cálculos, desenham mapas
O que movimenta as mãos como uma continuidade
Do pensamento preferiria os lados orientais
De uma certa cultura
De panos coloridos para cobrir
Nas rendas os tons fortes desenhados.

Dizem outras palavras, eu acho,
A mesma mulher me olhará de soslaio
Qualquer vista que preencha o vazio
Entre a saída e a entrada de alguma passagem
Do aeroporto internacional
Embriões do mundo.

Dizem, ainda temos a lua,
E me demoro a decorar o passado
Onde toca a agulha
A alma e o bisturi. Nossos passos,
Movediços em água,
Sangue e areias exiladas,
Se insinuam a estar entre dois polos.

 

SUPERFÍCIES NOTURNAS

Confirma a esfinge
O que afinal gostaria de lhe perguntar?
Seria o tempo da poesia reflexo do tempo do amor
E quando se escorre por dentro
Um noutro, nada mais importa como se cegamente
Derramasse em abismo o espaço aberto.

Algum dia teria a pátria do corpo?
Entrega: quando meu corpo for no teu
Mas direi:
Quando for outra, escavar nas palavras
Um ritmo, uma história, uma vida verso
No avesso permanecerei em minha ausência.
Ausência,
Ferimento dos animais
Uma dor em si
Buraco negro ou caverna.
É a semântica que nos faz outros.

 Terra assume a fragilidade dos passos
Que caminham pelas tuas pedras indiferentes
Assume a fragilidade de seus caminhos
Que sequer o homem sobre a pedra do rio
Nota a ausência da alma levada pelas águas.
Entras nas águas e nada detém do tempo
Que partiu. Que deixou as marcas de identidade partidas.

Já confirmei a sentença para quando fores
Em alquimia ou fogo a arder as diferenças:
Caminharei pelo seu corpo
E fará noite. Profunda noite.

 

PÁSSAROS SELVAGENS

Era um altar de sacrifícios, coração
Carnívoro chama azul delirante
Decompunha-se um pássaro
Selvagem atingido. Sonhei
A luz dos olhos do pássaro. Uma cena,
Penso em seguir outra direção
Os poemas cicatrizam as feridas
Me olha de frente. Me esquiva
De dentro de mim a escrita
A volúpia escorrendo dentro
De uma estação de águas.
Nesse instante rimas
Renasces em pétalas de ouro
Explode a terra a fazer
Da civilização um poema
Em escuta.

 

RUMORES CREPITAVAM

Rumores crepitavam nos dentes
Melífluo vale ritmado de capins
Mastigados lentamente.
O amor da vértebra dos animais
Eram sinais queimados senhas
Dos passos ensaiados selvagens.
A boca derramava um som latente
Perfurando do verde escuro
O ventre fêmeo da noite coberto pelas folhagens
Enterrada na relva onde o sol
Esbeira nascedouros.
Alto o dia era sempre ontem
O som decaía nas gotas de orvalho
Dávamos conta dos anteriores ao rumo
Íamos soletrando vocábulos miúdos menores que o tempo
Da folha que resseca as gotículas estudava-se
A ciência de sermos homens nesse lugar da ausência
Na língua que desbota a claridade
E tinge do rebotalho os seres
Com a clara pupila desgastada
Com as roupas de clarão um escudo a alma.

Precipitava a fábula
Na sábia indiferença dos sábios
Acolhidos na noite o novo medo exilado
Do silêncio mais antigo
Refugiados da cidade onde reconheciam
As vozes do passado.

 

VÉSPERAS

Haverá mais cores nas primeiras
Límpidas camadas esverdeadas
O sabor vem da terra com o vento
Esvai como um zunir
Nas vésperas de manhãs
Ao nascerem grafias num alfabeto mudo.

 

SETEMBRO

Compor azulejos
Com fragmentos
Da memória
Recolher suave
Esquecimentos
Quando tudo
(seguro em essências) São cinzas.

Transpor ao nome
A imensidão dos pássaros.
Recostar gaivotas
Em troncos
Palavras em
Asas
Aves em
Ninhos.

 

Primata

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