Mariana Payno: As ilhas não têm saída (2017)

Mariana Payno nasceu em Ribeirão Preto em 1992 e, desde 2010, vive em São Paulo. O apreço pelas palavras a fez jornalista, um pouco escritora e quase linguista. As ilhas não têm saída é seu primeiro livro de poesia.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados da obra As ilhas não têm saída (Editora Primata, 2017), disponível para compra neste link.

 

 

NAUFRÁGIO

 

a gente sentia que
o seu lugar era perto do mar
e meu o calor das suas vísceras
doentes

deita seus olhos fechados sobre mim
consegue respirar o que restou?
deita fora o que não foi

embarca no tempo do náufrago

escuridão
passiva
arrancada
do colo das ondas

o mar não engole suas costas
mas quase
preferia morrer no mar?

a melancolia da água
a solidão das âncoras
o mapa dos polvos
o som surdo das algas
a anatomia das conchas no ouvido

minha última voz perdida
nas suas redes frouxas

você ouviu?

o seu lugar era perto do mar
e o que restou a gente deita fora
onde agora piso
às cegas
a fundo

afoga.


 

MARÍTIMAS

 

e naquele dia
olhar você ir com ele
foi como afogar
num estômago de baleia
engolir a última luz

mais olho, mais conheço
mais me morre o estrangeiro que habito
desde que você confundiu
a cor grossa dos lábios com
o silêncio do céu da minha boca

naquele dia eu fui embora
pela única porta da sala
e então caminho ainda
procurando o vestido amarelo

numa poça de estrelas
era seu ou meu
ou de nenhuma

era sempre difícil ver você partir
sempre um balanço desconhecido
não saber a que horas você acorda
o que come às três da tarde de um domingo quente como os lençóis de fevereiro

a nuca em chamas
você aconteceu como um desastre
sem que eu pudesse pedir licença para dançar junto

pode dançar comigo
sem que ele veja que você
já esqueceu como deitar sobre as redes de pesca

(esquece do mar
esquece de ti
e mergulha em mim)

pode sentir a areia seca
um instante antes do tsunami
das nossas peles

quando você acontece longe aqui
é como se eu fosse para sempre
estranha em mim
(acontece em mim
eu já te invento aqui)

que horas você parte?
prefiro não ter o susto
de perder sua imagem do espelho

carrega meus sonhos como um pássaro
vive com eles sem que eu saiba
proíbe-me de querer

e se acontecesse um bocado mais acá
seria tudo menos estrangeiro
e se você morasse do outro lado da rua e eu te visse passear pela cozinha de chinelos de manhã
seria uma outra viagem para dentro do bule de chá

e se eu disser que ele sumiu
numa poça de estrelas
você esqueceria?

e se sobra desta tarde só
o furacão do seu olho no meu pulmão sem ar
assim você lembraria?

a confusão enferrujada de nós
precisa de uma nova âncora
abaixo do meu abismo
e um pouco mais perto do seu.

 

AS ILHAS NÃO TÊM SAÍDA

 

chegou à ilha debaixo de um sol de trinta e sete graus celsius
não tinha como medir a temperatura, mas era quente como a areia o ar
queimavam as maçãs do rosto inúmeras agulhas miúdas
talvez fossem os minúsculos grãos de areia que o vento tirava do tédio de estar sob os pés de um viajante

era estrangeira ali
e na sua pouca bagagem não trazia mais do que o suficiente para ficar
até que não fosse mais novidade o som das esquinas
queria ser sempre longe de tudo que parecesse perto demais

a ilha
não tinha esquinas

aos poucos conhecia a singeleza de cada grão de areia
saberia de cor a tristeza dos seus moradores
que eram todos tristes

um olhava o céu por um tubo de papelão e jurava ter visto três cometas desde 1987
o outro colecionava pedras que julgava perfeitamente redondas
a outra contava as pintas dos peixes e uma vez viu um rabo de baleia com quatro pintas enormes

lá onde não era possível ir
ninguém que chegava à ilha conseguia sair dela
nenhum olhar triste alcançava mais longe que a fronteira de azuis
o mar devolvia para a ilha suas nuvens barcos o teto de suas cabanas pobres
porque era como um espelho

e só a baleia com quatro pintas enormes no rabo tinha conseguido
carregar para longe da ilha sua solidão
quem chegava à ilha não era mais longe de nada porque o céu pesava sobre ela e o mar devolvia tudo para perto demais
nunca se era estrangeiro na ilha

descobriu logo que bastava encontrar uma tristeza
no intervalo entre as palavras céu e mar
guardar lágrimas cristalizadas nos soluços da ilha

e sempre voltar com o mar era um desgaste necessário
nunca ser longe
esmagar-se
estar demasiado perto

percebeu
as ilhas não têm saída senão para a imensidão.

 

MEU PAI Nº2

 

meu pai morre aos poucos. talvez tudo caiba dentro de um morfema, a transformação ou a estagnação – seja qual for o movimento, ele foi aprisionado, cercado por quarenta e seis longos meses. colocado assim, em número cru, muito tempo fugiu desde meu último dia nesta terra com meu pai. a conta é borrada,  decidir o que fica de cada lado da linha: é estranho que tanta coisa se tenha  deixado acontecer longe da respiração do meu pai. mesmo o que escapou da  existência é uma afronta silenciosa. quarenta e seis meses é uma distância demasiado exata para viver sem olhar no espelho. vinte e sete mil cento e vinte horas de ausência sufocam a memória do antes. foi a primeira vez que eu vi um sorriso triste, um sorriso de complacência, apesar da dor e por causa dela, sem dentes. sem esforço, desenho o contorno de seus grandes dentes brancos, um pouco parecidos com meus caninos tortos. desconheço a última vez que os vi e, desde então, mudei também a forma dos meus. esse sorriso triste, lembrá-lo no caminho era como arrancar o coração pela garganta. a estrada à noite era um grande vazio negro, como se a cada giro estivéssemos avançando para o abismo inevitável. as conversas eram miúdas, sem eco na imensidão. lembro do movimento, mas não do cheiro. lembro da cor e da forma dos lençóis brancos, mas não sinto sua superfície fria. lembro das pessoas como sombras cruzando os cômodos da casa, mas não sei dizer seus nomes em lista alfabética. lembro de chorar, mas não trago no corpo a surpresa dos soluços, o sobressalto das lágrimas. de nada adianta a reconstituição do que desaparece ao acontecer, como tudo que vem depois e soterra o laço de antes, e assim me afasto a cada segundo mais quarenta e seis passos da imagem do meu pai. será por isso que o mundo sobrevivente às profecias se tornou uma coletânea de horrores? todas as pessoas levadas por aquele ano, o que foi feito de quem ficou esperando por elas? o que houve de bom é perfumaria. é sempre o que já foi dito: a morte é um exagero. hoje quando subo ladeiras sinto o coração ser esmagado e dobrar de tamanho no instante breve que antecede o topo. o antes está embaixo. o depois é o consolo solitário do alto, o coração já perdido para o medo de despencar. e então, tanto faz: voar, cair. se eu tivesse entrado com ele na babilônia livros, tudo seria diferente. a cada página que eu esqueço de ler, sinto que meu pai morre mais um pouco.

 

BIGODE

 

por uma dessas assimetrias da natureza
— talvez a mesma que a fazia carregar tamanhos diferentes nos olhos,
os pelos cresciam-lhe mais do lado direito do rosto

um bom observador logo percebia
algo que não barba
mas um emaranhado de confusões

como cócegas
ou alegrias
de perto

a despeito disso
importante fazia-se o bigode
(este, sim, perfeitamente estabelecido em seu lugar)

digno de técnicos de futebol,
bandidos dos anos 1950,
aristocratas,
surrealistas,
qualquer mexicano ou português,
quem sabe um gato

movia-se acima da boca
com naturalidade felina

sorria
como a malícia infantil de dick vigarista,
um poema com duas estrofes de leminski,
o quadro mais famoso de dalí

e por mais cinco minutos
(os corriqueiros)
— esticados na cama

a felicidade roçaria a nuca
escovada
no silêncio das manhãs.

 

 

Primata

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