Milena Martins Moura: A Orquestra dos Inocentes Condenados (2021)

Milena Martins Moura nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro em 1986. É poeta, editora, tradutora e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Publicou os livros Promessa Vazia (2011, contos), Os Oráculos dos meus Óculos (2014, poesia) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (2021, poesia). É editora da revista feminista cassandra e integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Literária e de poetas do portal Fazia Poesia. Tem poemas e contos em portais e revistas como Subversa, Torquato, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Desvario, toró, Arara, Kuruma’tá, Aboio, Arribação, Totem Pagu, Granuja (México) e Kametsa (Peru).


Os poemas a seguir foram selecionados do livro A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021), disponível para compra neste link. A obra foi completamente escrita durante a pandemia da Covid-19 como maneira de lidar com a solidão, o luto e o medo.


.

a escrita que lambe o chão
sai do escuro
todo fim de ano
natal e finados
porre de vinho
crise alérgica
foto ruim
e divórcio
sai com fome
esperando sacrifício
e soluço
a escrita mambembe
que lambe a ferida
e cura a ressaca
que segura os pés do suicida
ao topo do prédio
volta pro escuro anônima
sem nunca dormir entre os reis

.

um plano grande,
intensamente arquitetado
deu errado
e eu não tinha plano b
termino a noite
cismando a rima acidental
e os detalhes do arremate
por cima dos mapas
a taça de vinho
acoberta em roxo
a mancha primeva
da caneca de café
uma beberagem sucede a outra
na engrenagem
da minha conformação
hoje fui fraca, não chorei
e o sal retido fez pulsar
a veia no pescoço
existe uma linha tênue entre a boemia notívaga
e o pão matinal
já já vai deixar de ser hoje
e ritmadamente me ponho a repetir
não vai passar porque é muito tarde
não vai passar porque é muito tarde
não vai passar porque é muito tarde

.


não é justo que essa noite eu passe a sós
engolindo o choro em vez do pão francês.
não é justa essa secura
roubando a fome da janta
nem esse lugar vazio
na cabeceira da frente.

eu preparei o de comer com tanto esmero
pra dar sustança nos ossos.

e que não venham me dizer para ser grata
pelas cabeças na guilhotina
só porque restou
mais farinha para os vivos.

eu assei com tanto apuro esse brioche.
até topei lavar um pouco as mãos.

não é justo que, depois
da entrega e do aceite,
tenha vindo de tão longe o barqueiro,
com suas patacas,
recolher a louça
antes do fim do serviço,

reclamar as almas
negadas por Pedro
e as amontoar indistintas
no mesmo batel,
onde reis e detratores
imploram ao mesmo deus
a mesma piedade.

.


venha rápido pois tenho pressa
tenho uma pedra
então entenda
o mergulho nessa água escura
é um risco
que eu só vou aprender a viver
depois do salto
um risco é o que se corre
e eu tenho pressa
meus braços são tão fracos
e eu tenho pressa
mesu olohs tmê falhaod
e eu tenho me evitado
no reflexo do poço
eu tenho pressa
da palavra pesando meu corpo
de levantar os olhos e ver
e ver
cada silêncio é uma imagem a menos
então venha rápido
antes da próxima maré
que nessas águas repousa a coisa morta
que se perdeu de mim durante a última música





Primata

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