Rique Ferrári: Rocket Man (2017)

Rique Ferrári é sommelier, professor e colecionador de antiguidades. Escreve poesias desde sempre, mas só agora lançou seu livro Rocket Man (Patuá, 2017), um projeto desenvolvido em viagens pela América do Sul, e todo ilustrado por grandes tatuadores brasileiros.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Rocket Man (Patuá, 2017).

 
 

 
 

MIJADA NO CENTRO DA MADRUGADA

 
 

chove da cintura para baixo num domingo rosmaninho
em mãos, meu órgão mil vezes animal
e perfumados fetos de plantas reverberam na planura do jardim externo
como se um destilado orvalho
deslizasse pelo esmagamento dos rodapés e parapeitos
tendo o poder de embriagar-nos
a fazer inclusive
a casca azul de meus olhos abertos, fechados e então semiabertos
vagar lentamente pela família de troços espalhadas pelo chão da estante
os lápis estão moles, escovas moles, chão, botões moles
meu mister amigável mole órgão
donde no anestésico corpo
o sangue sussurra pelas veias
uma canção de ninar

tempo: para sacudir o pinto

e como é paradoxal a cama ser leve e nós pesados a esta altura
na manutenção de um informático silêncio
(que parece tud0, tud0, tud0, tud0 saber)
jurado pelo ímpar e pelo par e
raramente interrompido
(apenas nos estalos dos fantasmagóricos móveis)

tempo: cama na distância do logo ali

volta-se pianinho para o leito
na sensação abafada
de que, se pisarmos em falso
pode o leve sensor da noite a qualquer momento disparar.

 

 

 

UMA CIDADE NÃO NECESSITA DE PUBLICIDADE, E SIM DE LABRADORES

 

la bra do res, dito assim, no plural de multidões

com seus olhinhos a dizer toneladas de palavras – todas redondas –
removendo os corpos vivos ou mortos de nossa alma

simplificar-se-ia tudo

inclusive, em vez de dizer

simplificar-se-ia tudo

diríamos

tudo simp

das formas: apenas bolas
das dietas: a do osso
dos diálogos
oi
au
oi
au

vogaizinhas borboleteando a dizer tudo que já está tão dito

respeite quem já nasce de bigode
e como dizem, balança o rabo com o coração

será mesmo um magnata ou um padre a perguntar:
do que esse bando vai viver?

viveríamos de uns aos outros
mas responderíamos todos juntos no três…

oi
au
oi
au

 

 

 

DIÁFANO

 

 

 

eram seis costelas da tarde
quando dei por mirar o esqueleto dos cantos

e a branda pausa da almofada que antecipa as manhãs de domingo
trouxe-me a observar inclusive as persianas da noite pintadas em um maníaco rubor

curva que madruga, há algo instaurado pelas janelas, talvez a hora

demarcando a simetria imposta aos parques noturnos
donde os mortos espiam gravemente com suas túnicas
a confundir as anilhas cinza-pele do corpo

indaga-se que o homem comum gostaria de trocar seus dedos por trapiches
e então se isolar
em um desespero tão subterrâneo quanto a sombra vomitada pelas manhãs

a retirar todos os céus da frente, e as ressonâncias de prédios caquéticos

a retirar as largas gargantas do solo pelas lambadas das turvas ruas
e a língua vermelha das rosas jogadas pelos amantes

o vertical latido das sirenes, relógio de duelo, tinta chinesa

a restar homens tarados pela sorte
desfilando com um anjo pela cintura como bandeirantes de ouro maduro

a restar a mão essencial do cego ou uma adolescente encantada com o presidente
e corpos vestindo trajes de chumbo que estavam adoecidos no baú
formando o atônito exército das estranhezas

agora, no exaustivo agora
o jardim sonolento de uma nuvem passa pela ultratumba da terra
onde se multiplicam os desejos nos músculos de deus

e estaciona meu sapato de cristal em um chão gasto de esmolas.

 

 

UMA POSSIBILIDADE

 

 

 

não é louco pensar que a multidão seja homogênea
ainda que saibamos que em seu meio estão nossos
heterogêneos companheiros da noite?

esta redoma chamada planeta TERRA, apesar de suas genias, é simultânea

fantasticamente

nem digo da esteira de ocasiões como refeições e sonos
nos sombrios parênteses dos fusos

nem como é ter uma luminária completamente cristã povoando
meus segundos e livros noturnos, enquanto bamboleantes luzes solares
adubam o corpo da desconhecida multidão japonesa lá no outro lado

digo – sim – da sombria caderneta do aqui-agora

o incrível simultâneo que é:

#um peixe é pescado enquanto um pescador pesca um peixe

#um rato é mordido por um gato enquanto um gato morde um rato

não que eu seja fornecedor dos panfletos da discórdia, mas

#um marido é traído enquanto uma esposa trai o marido incrivelmente

parece, neste atlântico de possibilidades,
que um lado da gangorra sempre pende para baixo

sabe-se lá o que descobriram em futurismo agora, ou a respeito de multiverso

mas meu coração desfraldado deseja que nalgum lugar o gato morda o rato enquanto o rato foge do gato.

 

A VIAGEM

 

 

primeiro corra até a janela, olhe através do vidro, a cidade em fogo-luz
acanhados quartos de pontos velados, raízes de velas ao chão

o serviço da chuva em almofadinhas de vento – faz frio
penso que desastre total das concepções
isto de nos vermos nos espelhos mas nos enxergarmos nas janelas; no colégio nunca comentaram a respeito

agora vá um pouco mais, para o lado de fora da janela
psicografando os restos de brisa, as fornalhas dos condescendentes e mutantes painéis de luz; mantenha o equilíbrio, ora na constelação de janelas ora no deserto de céu
– e que tanto

como as harpias

destemidos do gélido e do fogo, iríamos chegar neste ponto, você sabe, é um convite:

pule

com sua face completamente escancarada na conjunção dos átimos de segundos,
vislumbrando a gênese e os saltimbancos letreiros, os faróis trilhados e então a coragem

te leva

até a janela daquele amigo amedrontado pela leitura dos sinais presentes
até a rua onde franciscanamente você subiu/desceu raspando o limo dos muros,
quando criança;
lembra?
seus pais batizaram-no e deram um nome: – filho
e então sua avó ganhou um pequeno deus

as portas estão abertas

volte sempre.

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *