Roberto Piva: Abra os olhos e diga ah! (1975)

Roberto Piva (1937-210) é autor da plaquete Ode a Fernando Pessoa (Massao Ohno, 1961) e dos livros Paranóia (Massao Ohno, 1963), Piazzas (Massao Ohno, 1964), Abra os olhos e diga ah! (Massao Ohno, 1975), Coxas (Feira de Poesia, 1979), 20 Poemas com Brócoli ((Massao Ohno, 1981), Quizumba (Global, 1983) e Ciclones (Nankin, 1997), reunidos em três volumes pela editora Globo, sendo o último – Estranhos Sinais de Saturno – acompanhado de poemas inéditos. Marcada pelo experimentalismo, múltiplos diálogos e alta qualidade das imagens poéticas, sua obra é uma das mais intensas da poesia brasileira contemporânea.

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados de Abra os olhos e diga ah! (Massao Ohno, 1975), terceiro livro do poeta. Confira a postagem sobre suas outras obras neste endereço.

 

 

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VISÃO ANTROPOLÓGICA DO CANTO DA JANELA
    PRISMADA EM GELÉIA-CORAÇÃO NO VINHO
    DE MARÇO (o mês mais terrível)
            novos animais de rapina
OS OLHOS DO MEU AMANTE OS OLHOS DO MEU AMANTE
              galáxias internas OLHOS LIBERDADE galáxias internas
    no fundo cor-de rosa do chocolate eu te respiro
                nas tripas só com os mortos & seus travesseiros de
           flores
                nas tripas extravagantes meu amor atrás das
vitrinas
                        só com os mortos o universo é um espirro
           no útero da maçã
                            tudo começa
                            a anoitecer
                        cheio de energia

 

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            eu sou o jet-set do amor maldito
    DENTRO DA NOITE & SUAS CÓLICAS ILUMINADAS
os papagaios da morte com Aristóteles na proa do trovão
              DISPOSIÇÃO DE IR A DERIVA NOS DADOS DO AMOR
                     espinafre pela manhã & queijo em pasta
                            almas-esportivas com flores entre os dentes
    minha laranja se abrindo como uma porta
             TUA VOZ É ETERNA eu vejo a mão cinzenta rasgar
    a parede do mundo
           ESTAMOS DEFINITIVAMENTE NA VIDA

 

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(O SEXO DA MEIA-LUA LANÇA SUA NOTA METÁLICA & SEUS
       GATOS SELVAGENS) onde dançamos com gorilas tântricos
               cérebros eletrônicos fazendo xixi na cama vermelha
GRITOS MARAVILHOSOS NA JANELA política do esquecimento
                        sistemático ESTAMOS NA MERDA GENTIL
rosto de beterraba & sexo em ruínas
     espelho bilíngue minhas esporas & olhos sorridentes
TODOS CHORAM AO MESMO TEMPO NO BRONZE DA TIRANIA
     & COMEM SUAS MENINAS o vento da vida os braços
                 dependurados maxilares estourados ao amanhecer
TOTEM KAPITALISTA TOTEM KAPITALISTA TOTEM
                                                                                                KAPITALISTA

 

 

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