Armando Freitas Filho: anos 1980

Armando Freitas Filho nasceu em 1940 no Rio de Janeiro e estreou em 1963 com Palavras, editado por conta própria com ajuda do amigo José Guilherme Merquior. Escritor compulsivo, publicou e continua a publicar uma vasta obra poética, marcada pela  ampla imaginação e musicalidade em seus versos singularmente controlados. Dada a extensão e qualidade de seus livros, resolvemos dividi-los em uma série de postagens. Confira a primeira, referente aos livros dos anos 1960 e 1970, aqui.

Para a publicação de hoje, selecionamos alguns dos nossos poemas preferidos de seus três livros lançados na década de 1980: Longa Vida (Nova Fronteira, 1982), 3×4 (Nova Fronteira, 1985) e De cor (Nova Fronteira, 1988).

 

 

 

poemas de Longa Vida (Nova Fronteira, 1982)

 

 


.

 

Escrevo
             só
em último caso
ou como quem alcança
o último carro
como quem
                  por um triz
por um fio
                  não fica
no fim da linha
de uma estação sem flores
                        a ver navios.

 

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Por dentro a morte
se movendo
                      atrás do pano
em pânico
de estar sempre pronta
e desgrenhada
                        para entrar no palco
e ter que morrer e errar
de repente – ao deus-dará
na boca de cena
                        com a boca no mundo
a cada momento dos dias
da longa vida.

 

.

 

Seja de seda
            mas selvagem
corra
            e perca
por um triz, o fio
a linha
                      o ritmo
mas não esfrie o brilho
                      nem apague
a luz da sua cor
que quer
                       ser de fogo
arrepio e risco
não se afogue
em silêncio, em si

 

.

 

No pau-de-arara
                        é proibido gozar
mesmo quando enrabado

por muitos
                        e o espasmo
sacuda o curto-circuito
do corpo
fudido em verde-amarelo
                        sob o som
das botas, das patas
dos saltos altos
da Pátria em marcha
das famílias caindo de quatro
                        ao som
de Dom e Ravel
de Deus
                        salve a América!
Eu te amo meu Brasil
eu
                        só ouço vômito
e as aves
que aqui gorjeiam
                        etc.

 

 

poemas de 3×4 (Nova Fronteira, 1985)

 

 

 

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Arrancadas tão depressa
                      pelos cabelos
pela raiz
da terra última
estas palavras são mudas
trêmulas e íntimas
e erram no ar
quase sem fôlego
buscando um vôo para a voz
e qualquer vento para o pouso.

 

.

 

Abrir os pulsos
           as gavetas
e cortar as veias
enquanto é tempo
de salvar a vida
e impedir que o poema
caia
           em si mesmo
como os repuxos, os reflexos
os anúncios luminosos
que trabalham sempre
com a mesma água
sem o risco das hemorragias.

 

.

 

O que foi que eu não te fiz
não foi com a mão
foi com a cara
do corpo todo.
Foi com uma face
de dois gumes
no lusco-fusco da ante-sala
de aluguel
do quarto desesperado.

 

.

 

Pelo olho-mágico
onde só cabe um olhar
quando a campainha toca
avisto os corredores
a escada dos fundos
da cidade
o hall de mármore catatônico
a saída de incêndio
– enquanto há tempo –
e os elevadores, carros
navios, castelos
os edifícios fúnebres e fumées
abandonados até pelas baratas
começando a cair e a afundar

 

.

 

Seu rosto
é um pedaço de música
muda
            conforme o vento
mas eu o escuto
de longe, sem olvido
mesmo sem ver
e acompanho, de cor
o suspiro deste ah
mor rasgado.

 

 

poemas de De cor (Nova Fronteira, 1988)

 

 

 

NA ÁREA DOS FUNDOS

 

Você não pára de cair
fugindo
por entre os dedos de todos:
água de mina
resvalando pelas pedras.
Nunca
nenhum poema acaba
a não ser com um tranco
com um corte brusco
de luz.
As janelas daqui não choram
como nos filmes
com seu clichê de vidraças
feito de chuva e lágrimas
que o estúdio e o destino
encomendam
aos deuses de passagem.
De costas é melhor
para não perder de vista
nem por um segundo
nenhum sentido
do que estava escrito
nem quando, no chão
seu corpo
a céu aberto!

 

 

SEM ENDEREÇO

 

Seus olhos não estão mais aqui.
De azul só ficou o céu
sem assinatura.
Não, não há nada, cadáver
neste apartamento cego
de seu olhar
que lembre o outro
onde você correu
desde a menina do princípio
até o precipício da mulher final.
Aqui não há nada, cadáver:
somente sua voz sozinha
e gravada – em off
que faz com que qualquer coisa
das que foram suas
ganhe corpo, sopro, retrato
enquanto escutamos
o repetido ataque de sua voz.

 

 

RAVEL

 

Todo telefone é terrível – negro
guerrilheiro à escuta na sala
disfarçado ao lado do sofá
à espera, no gancho
sempre na véspera
com o grampo da granada
já nos dentes.
A única saída é ocupá-lo
para que não estoure
(não posso te agarrar daqui
nem pelos fios dos cabelos
para antes que toque
e o infinito acabe).
Todo terrível é telefone – negro
à escuta
guerrilheiro à espera
ao lado do sofá
disfarçado na sala
na véspera da granada
com o grampo nos dentes fora do gancho
ocupando a única saída
para que não estoure
(não posso nem pelos cabelos
antes que acabe e toque
o infinito, te agarrar, nos fios, pare
daí).

 

 

PETRÓPOLIS

 

Os aços nus das facas
sem uso, nas gavetas.
A lâmpada esquecida acesa
mesmo sob o sol
continua queimar a frio
o quarto de manhã.
A natureza erra.
– morro, terra, mata –
na luz que é uma catástrofe
nesta estrofe, e o vento
é um rio que aprendeu a voar
ou o contrário.
Um verão pasa atrás do outro
no corredor – ninguém
está de férias no espelho:
somos só sentinelas
até a morte.

 

 

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