Celso de Alencar: Desnudo (2018)

Poeta paraense, radicado em São Paulo desde 1972. Sobre Celso de Alencar, o poeta e crítico Claudio Willer, afirma que se trata do mais enfático poeta contemporâneo brasileiro. Escreve com furor messiânico, com a veemência dos profetas. Enquanto, o compositor e poeta, Jorge Mautner, o considera profeta da quarta dimensão, escandalizador e libertador de almas. Já o cineasta Carlos Reichenbach sintetiza: Celso de Alencar é, sem nenhum exagero, um dos maiores poetas brasileiros em atividade. Sua poesia blasfema e despudorada é da estirpe de Pasolini, Rimbaud, Leautréamont, Sousândrade, e todos os nossos malditos maiores. O artista plástico Valdir Rocha é taxativo: loquaz, perverso, mordaz, contundente, imprevisto, surreal, etc., e o poeta e crítico Carlos Felipe Moisés decreta: diabolicamente angelical ou angelicalmente diabólico. É reconhecido entre os grandes talentos da Geração de 1970. É autor dos livros de poesia Salve Salve, Arco Vermelho, Os Reis de Abaeté, O Primeiro Inferno e Outros Poemas, Sete (com 25 xilogravuras de Valdir Rocha), Testamentos, Poemas Perversos, O Coração dos Outros e Desnudo.  

 

 

celso de alencar


Os poemas a seguir foram selecionados do livro Desnudo (Quaisquer, 2018).





CARTA PARA A MINHA MÃE MORTA


Mãe, há uma loucura às vezes.
Aqui dentro escuto um som distante
de máquinas de serraria.
Pela vidraça da porta vejo
um velho ventilador prateado se movimentando no quintal.
Os galhos das árvores sobem e descem,
repletos de passarinhos vermelhos.
Uma gigantesca onda de loucura me diz:
enforca-te sobre a parede com teu vulto de tontura e fúria.
E os homens gordos das suntuosas lojas de perfume
se escondem atrás das cercas de madeira,
masturbam-se e rastejam pelo capim e choram,
riem, mijam e chamam as prostitutas de prostitutas,
e fumam e bebem sem uma fala que comova,
ou um pequeno discurso de prostituídos
ou uma lambida de língua sobre as mãos.

Os outros, os magros, roçam seus pênis
esbranquiçados nos encostos
das cadeiras do Teatro Público Joseph Morgan
e babam como homens inúteis e insignificantes.
Eu lhes digo: não cuspam no chão por favor.
Há uma criancinha deitada sob seus pés.
Então, levemente se aproxima a nuvem fria
derramando gelo sobre os velocípedes brancos.
E ouço gritos de uma esposa, pálida,
pedindo comida no meio da multidão de
desempregados domésticos e ambulantes
vendedores de sapatos e cintos, masculinos.
Então vou à juventude dos anos
dos meus antepassados para reconhecer
os meus braços e o meu rosto antes que se
desmanchem como as nuvens.
Mãe, às vezes é tudo tão estranho.
Os cobertores da lanifício Ravler Eskle
têm me protegido do frio
e tenho notado as minhas unhas
que crescem como as romaneiras.


QUANDO MINHA FILHA FICAVA NUA PARA SEU MARIDO


Era, como se não fosse
a minha filha.
Era como se fosse uma putinha
uma putinha jovem
da casa da velha Edith Gronder.
Mas, era a minha filha
nua para seu marido,
com pétalas amarelas
escorrendo pelos braços.
Os besouros pretos brigavam
chocando-se, provocando sons
de panelas inoxidáveis
contra panelas inoxidáveis.
Pequeníssimas borboletas vermelhas
pousavam sobre as peças
íntimas de minha filha
que se encontravam jogadas
sobre a cômoda e a cadeira.
De fora vinha o rugido assustador do vento
e o canto dos velhos cortadores de madeira
e ainda o som do choro das éguas famintas
e de seus filhotes que desmaiavam ruidosamente
quando começava a noite
como se fossem grandes pássaros enlouquecidos.
E lá estava minha filha
nua para seu marido.
Uma dança ela inicia.
Um passo curto
um longo
e outros passos surgiram.
Muitos outros.
E tudo se tornou tão rápido.
Súbita euforia, surpreendente, estranha.
Um leve tremor de pernas.
Um barulho de botas de caçadores de veado
batendo fortemente no chão.
E uma cobra sob o som
de uma pequena flauta de bambu
subia e descia como uma dança
como se acompanhasse minha filha.
As borboletas levantaram-se
como se saíssem de um sono profundo
e iniciaram um voo desordenado
e jogaram sobre o assoalho
uma poeira colorida deixando
marrom e azul o fogo das velas
que iluminavam o quarto.
E minha filha dançava, dançava
com sua sombra projetada na parede
enquanto seu marido
desnorteado inteiramente
sentado sobre as próprias mãos
a via rodopiando, rodopiando,
como um redemoinho,
sumindo, sumindo,
e os cachorros latindo
dentro do quarto
abrindo a grande penumbra da noite.


CANTO



Minha amada
entrou comigo no bosque
e lá ficamos andando
entre os pequenos animais.
Nossas mãos estavam juntas
e assim ouvíamos o canto
dos pássaros que haviam
imigrado no inverno.
Eram belos.
Suas penas traziam cores raras
nunca vistas em nenhum outro bosque.
E lá, eternamente, ficamos ouvindo
os nossos corações e os cantos
dos pássaros que fugiam do inverno.


HÁ SANGUE SE DERRAMANDO



Minha amiga está sangrando.
Eu nunca soube estancar sangue
de nenhuma ave que voa.
Não sei conter nada que se derrama.
As carroças estão ocupadas
com os passeios dominicais
das velhas senhoras do lago St. Benedict.
E cavalos, não há nenhum à solta
agora pelos campos.
Um resto de frio da primavera
se desloca na direção do verão e se derrete
e se guarda para as estações do próximo ano.
Minha amiga está sangrando
e não pode esperar as estações
do próximo ano.
Os cavalos estão presos no quadro
da parede da minha casa
e eu não sei como fazer
para conter o sangue que se joga
sobre os vestidos brancos.
Eu nunca soube.


AS QUATRO MULHERES DA RUA CONSOLAÇÃO


Estavam nuas.
Abram a porta eu lhes disse. Estavam nuas
com seus seios redondos
e seus púbis escondidos entre
os pelos dourados
e pela noite que chegava.
Amavam-se com a loucura própria
das mulheres que se encontram nuas.
Beije-nos, elas diziam-me.
Eu passava meus dedos compridos em volta
de seus lábios e as beijava
com sangue que escorria levemente da minha boca
e mordia-lhes as orelhas,
as extensões dos ombros
e a carne de suas coxas.
De repente, eu não sabia
O que era braço, o que era cabelo
nem mão, nem cabeça.
Debruçavam-se sobre mim
e eu me sentia um banco de estação ferroviária
ouvindo hinos longos e antigos.
Foi quando uma laranjeira brotou
no meio da sala e elas iniciaram um soluço infantil,
depois um soluço velho e debaixo de soluços
pediram-me que eu retirasse as folhas
que caíam sobre suas pernas.
Inesperadamente, um forte mugido primitivo,
um coro, soou, e eu gritava:
ó vacas, filhas da Consolação,
quero comer seus pulmões
com manteiga holandesa.
Então passei pela porta
pela outra porta
e vi um monomotor colorido sobrevoando
o velho cemitério da cidade.
E por um longo tempo.
Um tempo de horas.
Fiquei sem saber
o que era calçada
e o que era Rua.


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