Glauco Mattoso: Graphophobia (2018)

Glauco Mattoso, academicamente estudado como um caso “queer” de poeta satyrico e fescennino, é auctor de mais de cinco mil sonnettos e mais de cincoenta livros de poesia, alem de ficção e ensaio, de um tractado de versificação e de um diccionario orthographico, este systematizando sua reacção esthetica às reformas cacophoneticas soffridas pelo portuguez escripto. Paulistano de 1951, perdeu a visão nos annos 1990 devido a um glaucoma congenito que lhe ensejou o pseudonymo litterario. Sua producção mais volumosa occorre apoz a cegueira, graças a um computador fallante.




Os poemas a seguir foram selecionados do livro Graphophobia (Patuá, 2018).




BATHOPHOBIA


A cegueira nos illude:
mesmo em casa, me appavora,
não havendo quem me adjude,
caminhar, confesso agora.

Sempre assumo uma attitude
precavida: si estou fora,
temo o piso, arisco e rude;
si estou dentro, o que me escora.

Sensação tenho de estar,
sem appoio, em mau local
ou suspenso, num logar
escurissimo e abyssal!

Como, em sonho, a gente pisa
num boeiro ou lodaçal,
num buraco e affunda, bisa,
accordado: é tudo egual!


AGORAPHOBIA


Tem certeza? Tudo eu posso?
Não preciso nem rhymar?
Nem tem metrica este troço?
Que legal? Vou me esbaldar!

E as estrophes? Neste nosso
poeminha, as faço em par?
Ou nem ligo e nem me coço
si as não ponho no logar?

Nossa! Tanta liberdade
eu extranho! Quem diria?
Puxa vida! Attraz de grade
sempre estive, em poesia!

Mas, si tudo fica aberto,
mais me augmenta esta agonia!
Mais eu soffro, e mais me apperto:
Antes, livre eu me sentia!


GRAPHOPHOBIA


Por escripto tudo fica
mais explicito e formal.
Mas tem gente, pobre ou rica,
que prefere o termo oral.

Si um poema se publica,
se mantem no original,
mas, na falla, “phallo” é “pica”
e é “suruba” a “bacchanal”.

A palavra soa boa,
ou na rua, ou no Congresso,
ao politico, pois voa,
não é como o texto impresso.

Si eu souber que ninguem grava,
mando alguem tomar no sesso,
mando o povo todo à fava
e as palavras já nem meço.


HOMOPHOBIA


Ja fallei que quem mal falla
dos veados é suspeito:
dum collega elle olha a “mala”,
a sonhar com o subjeito.

Quem é macho e não se eguala
ao gay, deste bom conceito
faz, pois sobra, alli na sala,
mais mulher em seu proveito.

Quem mais odio dum gay sente,
caso um caso não arrhume,
será aquelle, justamente,
que quer tel-o e não se assume.

Si são obvias phrases taes
e cortante teem o gume,
repetir não é demais,
pois oral corre o costume.



TYPHLOPHOBIA


Todo mundo da cegueira
medo sente: eu também tinha.
Si não ha quem cego queira
ser, que signa foi a minha!

Minha lyra até ja beira
a loucura e, emquanto allinha
chulos versos, ouve e cheira
uma pleiade escarninha:

Milton, Borges, Adheraldo…
Um Homero, até, se evoca.
Herdei delles este saldo
mais ironico e masoca.

Mas de mim quem sente medo
pelo gozo o medo troca
quando vê que a lingua eu cedo
a seus pés, sem mais minhoca.



INVEJA DO PECCADO E VICEVERSA


Intriga-me Ulyssinho, um chipanzé
que calças usa e tennis põe no pé.
Um dia, perguntei por que é que o dono
questão faz de que Ulysses calças vista,
si pellos pelo corpo tem um mono.
Surpresa me causou sua resposta:
“Assim elle se porta como gente!
Sinão, elle se chupa, facil: sente
tesão, se curva, e o pau na bocca encosta…”
Pensei: “Isso é o que eu, soffrego, ambiciono!
Fellar-me! Hem? Oxalá contorcionista
eu fosse! Que faltasse, à noite, o somno!”
Que pena! Nem a lingua eu chego até
meu pé! Não sou macaco, e Ulysses é!

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