Leonardo Chagas: Cosmos / Cacos (2018)

Leonardo Chagas é um poeta paulista. Transita diariamente sobre as linhas férreas desde as margens do rio Juquery às margens do rio Tietê. Disseminador da poética paranóica Beat-Surreal, lança seu primeiro livro Cosmos/ Cacos em 2018 aos 22 anos sob o signo do Cão.


foto: João Gabriel Villar da Cruz

Os poemas a seguir foram selecionados do seu livro de estreia Cosmos/ Cacos (Editora Primata, 2018), que acompanha também ilustrações de Lorena Romão.


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CANÇÃO DA EXPERIÊNCIA



a cidade do inverso 
o avesso do agouro 
o cansaço do verso 
o apelo, o abandono 

o sagrado, a sangria 
o castiço cachorro 
a Camisa de Vênus 
o perfume do Touro 

as libras do vento 
a virgem de ouro 
retiram do tygre 
o cordeiro tolo 

desfeitos os nós 


.


jangada rumo ao céu 
a estrela solitária  
ao piscar  
desaparece 

penso que preciso persistir 
olhar de perto o brilho 
olhar para o astro cintilante 

meus dedos balançam no ritmo 
solitário do vento 
como tesoura 
meus dedos cortam o ar 
figuras imaginárias se dispersam  
me distraio com o balanço 

reaparece a estrela 
meus pés nus no alto do corpo 
fazem meu sangue jorrar mais forte 
rumo ao peito 
são muitas as direções de todas as coisas do mundo 

fecho os olhos 
desapareço. 



DEZEMBRO


o vinho compartilhado da garrafa 
as veias acinzentadas da neblina  
a fumaça que sai dos lábios do desejo 
os corpos estirados no chão da sala 
coisas que jamais esqueceremos 
“um violão guardado  
aquela dor”  
o som 
e a fúria dos nossos corpos  
iluminados na imaginação  
corpos flamejantes que se enganam 
que se entendem 
que se amam 
que nunca se tocam  
fora dos sonhos. 


O GRITO 

P/ Allen Ginsberg (sob a luz de Claudio Willer) & Macunaíma ! 


Eu grito na orelha do Cristo 
palavras descompassadas 
sonetos desfigurados  
sons neandertais 

Eu grito na orelha do Cristo 
meu sexo & o meu sossego 
meus ritos e meus encantos 
minhas predileções 

Eu grito na orelha do Cristo  
seis versos encandecidos 
a reza de minha mãe d’agua 
os escândalos dos guzerás 

Eu grito na orelha do Cristo 
quando me falta o silêncio 
quando o corpo se faz presente 
& me fode & me tira a paz. 


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