Juliana Bernardo: Vitamina (2013)

Juliana Bernardo é poeta, taróloga e mochileira. Publicou Carta Branca (2011) e Vitamina (2013), ambos pela Editora Patuá. Desde 2012, organiza saraus, festivais independentes e rodas de conversa sobre escrita e publicação. Cursou Filosofia, na USP, e coeditou a Coleção Edições Maloqueiristas (2014), que reuniu 26 títulos entre poesia, ficção e teatro marginal. Escreve sobre as medicinas da floresta, e edita em casa seus livretos sobre bruxaria e sobre candomblé.

contato: [email protected]
https://www.facebook.com/caminhandocomosmisterios

 

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Vitamina (Editora Patuá, 2013).

 

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sou criança. ganho de presente um coelho e um lápis. o lápis para
desenhar o destino do coelho. nas páginas grandes do livro em
branco rabisco planaltos ensolarados e um enorme gato laranja,
eletrocutado de alegria. no verso desenho um campo que lembra
o jardim das delícias. a cor vai correndo atrás do que o lápis traça.
o livro foge do meu controle. o coelho é verde.

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Luiza Borba

luiza borba. são paulo capital 1995. criançosa por persistência : mãe de fartesia (anadarco editora, 2012) i candombeiras, (c)a(r)dências caiporas no rompante do ris(c)o (2016) : sigo grÁvida : sou rio : às margens : to tumém nas antologias 1 vez poetas ambulantes (2013), Di Menor, uma antologia Maior (nas redes desde 2015 – https://issuu.com/vctrh/docs/dimenor), Marginais Plácidos (antologia do slam do grito, 2015) i Ciranda Poética (antologia do sarau encontro de utopias, 2016) : so fundadora do projeto turma tinas, criancionices poéticas, que participou em 2014 do reflorestamento de sacys na premera virada educação : tava inda na mesa de debate páginas anônimas, a literatura que o brasil faz e você desconhece, acontecida na 24ª bienal do livro : é capaz que esteja esquecendo de algo. perdoa.
[texto da autora]

 

foto-luiza-borba
foto: João Marcos Nigra
 

Os poemas que seguem foram retirados do livro candombeiras, (c)a(r)dências caiporas no rompante do ris(c)o (edição da autora, 2016)

 

/cismansando o m/

tem sempre um ruído de pessoas prestes m som m
anso e l e n t o que nos cai i
r-remediavelmente dentro é tudo s
imples por aqui . e por isso mesmo
é tudo centro
transbordando nos o
cos, emprenha vazio caduca fronteira
sem precisões nem precisânsias, amor é u
ma risada larga que cabem tudo

fecundo . diz
vai abraçar o mundo de pé descalço

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Giselle Vianna: Interpeles (2008)

Giselle Vianna nasceu em Campinas-SP em 1981. Formada em Direito pela USP, é mestre e doutoranda em Sociologia pela Unicamp. É autora do livro Interpeles (Editora Komedi, 2008) e organizadora do livro Tempo de Jabuticabas (Editora Pontes, 2016). Idealizou o Coletivo Ocupecompoesia, que promove ações político-poéticas na cidade de São Paulo.

 


foto: André Gomes de Melo

 

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Interpeles (Editora Komedi, 2008).

 

ME

ilumina-me
pensava ele diante
do vagalume:
então o dissecava
até o caroço da morte
mas aprendi anatomia
consolava-se em pânico

diverte-me
pensava ele diante
do brinquedo eletrônico:
então o destroçava
e remontava
triunfante

ama-me
pensava ele
diante de Ana:

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Maria Giulia Pinheiro

Maria Giulia Pinheiro é autora de Da Poeta ao Inevitável, pela Editora patuá (2013), Alteridade, pelo Selo do Burro (2016), e dramaturga dos espetáculos Mais um Hamlet, Alteridade e Bruta Flor do Querer. É fundadora do grupo Companhia e Fúria, em que atua, dirige e escreve. Formou-se jornalista pela Fundação Cásper Líbero e atriz pelo Teatro Escola Célia Helena, especializou-se em Roteiro para TV na Academia Internacional de Cinema e é pós-graduanda no curso “Arte na Educação: teoria e prática” – ECA/USP. Nasceu em São Paulo, SP, em 28 de maio de 1990. [Biografia retirada e revista do livro Alteridade.]

 

magiu

 
 
POETA

Quando chegar,
não vou saber que você é você.
Deixarei entrar,
aos poucos,
cedendo à poesia de viver ao seu lado.

Colocarei avisos e barreiras:
“Favor no caminho não alimentar minhas obsessões”.
Direi:
“Sei amar.
Às vezes, demais”.
Você rirá e entenderei silenciosa que
meu amor é meu.

Vamos ensinar a respirar longamente,
a não esperar,
a ver,
a analisar:
Sujeito-Sujeito.

Você vai me arrancar a pele
(vai doer).
Vou lhe jogar meus ácidos
(vai doer).
Nós vamos fazer Amor da nossa carne viva.

Sem sangue.
Putrificação –
– Pure-fazer –
– Purificados.

As novas camadas que vão nos cobrir
(nosso amor será destruição-construção, nunca reformahábito)
serão sublimações ético-afetivas.

Você vai me dar impressão de analfabetismo ficcional,
por fazer da realidade mais bonita do que as minhas criações.

Um dia,
só um dia –
não hoje do nosso futuro criado -,
vamos dizer:
“Agora é fim”.

Cada um para o lado,
desconjuntados,
solo
próprio.
Marcas de raízes profundas que já não capturam nutrientes,
mas existem enquanto resquício de caminho.
Então, novas buscas de novas poéticas.
Sozinhos e tatuados por versos concretos.

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Ana Rüsche – num quando

Imagem de Amostra do You Tube

 

Leitura de Ana Rüsche no evento Desconcertos de poesia, organizado por Claudinei Vieira no Patuscada – Livraria, bar & café, dia 19/07/2016.

 

NUM QUANDO

a cirurgia foi um after hours, mas estou
acostumada a ir dormir tarde
acho que os médicos também, tão animados
fui sim até o centro cirúrgico bem acordada e
fiquei acordada, sinto a hack entrando
entrando…
ainda ao longe, bem corajosinha, uma conversa
sobre qualquer coisa, luzes nos olhos
para que me sinta bem iluminada, bem disposta
de súbito lembro que não fiz depilação, e isso me
envergonha mortalmente
seria tudo filmado e colocado no youtube da
faculdade de medicina, ririam de mim
mas tenho de explicar – foi de urgência a
cirurgia, não houve tempo
nunca há tempo para nada nessas terras, apenas
para ficar ali, suspensa
e, afinal, não tenho namorado, foi uma urgência,
acontece

no início me estacionaram com o carro-maca ao
lado de um cara paciente também
podíamos até começar ali um romance,
lembro de ter desejado ao final “boa sorte, moça”
e isso acabou já com tudo, que bobo
ele morria de medo, ia retirar uma pedra do rim e
não se rendia a dormir
eu logo disse, ah, comigo também pensaram que
era cálculo renal, pela dor,
mas  depois viram que era uma laranja na
barriga que eu tinha…
de súbito lembro que removeram o cara paciente
com seu carro-maca e com seu medo
e fiquei pensando num poema do zukofsky, sobre
uma laranja e o sol e a letra a
e estava já chorando, desesperada por estar sozinha
e confundindo os poemas, estar tão sozinha,
e a dor, bem, isso é com as mulheres