Roberta Tostes Daniel: Uma casa perto de um vulcão (2018)

Roberta Tostes Daniel nasceu no Rio de Janeiro. Publicou os livros Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018) e Ainda ancora o infinito (Moinhos, 2019). Participou das antologias Sob a pele da língua – breviário poético brasileiro (Arc Edições), Um girassol nos teus cabelos – poemas para Marielle Franco (Quintal Edições), Desvio para o Vermelho (Centro Cultural São Paulo), entre outras. Seus poemas também foram publicados em sites e revistas literárias, tais como: Gueto, Germina, Mallarmargens, Zunái, Polichinello, Incomunidade, Liberoamérica.



Os poemas a seguir foram selecionados da obra Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018).



INFÂNCIA

Tenho a idade da Terra
chove desde sempre
meus galhos são suturas
observo o Pacífico de longe.

A chuva gretou pela infância
atraída por vagalumes imaginários
nunca foi tão escuro
as estrelas já eram míopes.

No meio do mato houve a chuva
no meio da chuva houve o mar
fiquei presa no Atlântico.


.


Persigo
indelevelmente
a mancha assassina
da minha sombra.

Encontro
proibido
me desintegro.

Entrego a erosão
nem moça
nem pedra.

Em parte janela
ambígua
em parte moldura

jazigo
formas do feminino

nunca prontas
sempre vastas.

.

Deus me abre a corcova de pregador
esqueço parábolas.
O ódio acumula no tempo, nos móveis pesados.
Tudo perdi. No entanto, o amor das coisas breves.
No entanto, a ancestralidade.
Com os olhos desfolhados, as mãos cheias de feitiço
póstumas as mãos, a rondar o real além do real.
A neve suja do sol, Simenon, três vidas
a mancha o eixo infinito
do homem ordinário.
Quisera esvair o deserto
chamar de norte o começo
traficar palavras.
Tornei-me a arma
que me cala.


ORAÇÃO


Que o pó da estrada
detenha
o pó dos homens.

Que a varredura
dos significados
seja jamais plena.

Que a duração
seja durável
mesmo nas margens
da alegria.

E no riso
um rasto
e no medo
nenhum.

Existência
sombra e
luz do dia.

.


Todo feito de trigo e patas sujas
do feitio da vida incauta
que emaranha teus latidos.
Dentes servem para o sono
fome serve para os músculos.
Tua necessidade não provém da ração diária
mas de teus batimentos cardíacos
que embaraçam meus circuitos neuronais.
Tua genética branca, preta, caramelo
na contingência de espaços de correr.
Costuro aos olhos teu focinho, aí vou
onde não há a rudeza do tempo.


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