Bruno Brum: Tudo pronto para o fim do mundo (2019)

Bruno Brum nasceu em Belo Horizonte, em 1981. É poeta e designer gráfico. Publicou os livros Mínima ideia (2004), Cada (2007) e Mastodontes na sala de espera (2011, vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Poesia, em 2010). Tem trabalhos publicados em periódicos e antologias no México, na Argentina, no Peru, no Paraguai, na Espanha e nos EUA. Em 2018, a Antônima Cia de Dança apresentou em São Paulo o espetáculo Isso ainda não nos leva a nada, inspirado no livro Mastodontes na sala de espera. Vive em São Paulo desde 2012.


foto: Tatiana Perdigão

Os poemas a seguir foram selecionados do livro Tudo pronto para o fim do mundo (Editora 34, 2019).



O PORCOSSAURO


O Porcossauro não está contente.
Precisa de novos amigos
e um novo lar.
Precisa se esforçar mais
e entender que nada na vida vem fácil.
O Porcossauro caminha pela cidade observando os outros porcossauros
aparentemente mais felizes do que ele.
Sabe que é hora de mudança.
Mas mudar o quê? pergunta-se, angustiado.
Ninguém poderia estar mais triste.
Nem mesmo os porcossauros que não têm onde morar e o que comer.
Tudo depende de você, dizem os porcossauros felizes.
E isso só piora as coisas.
O Porcossauro pensa na Porcossaura e no Porcossauro Jr.
A angústia aumenta.
Não há para onde ir, conclui, atravessando a rua.
Não há por onde continuar.
Mas deve haver um jeito.
Deve haver um jeito, resmunga.
Ou não me chamo Porcossauro.




A GÔNDOLA MÁGICA


Eis a gôndola mágica:
é idêntica a uma comum,
só que mágica.



DIZEM QUE O MUNDO É UM LUGAR ENGRAÇADO


Eu vi Peter Pan despencar sobre a plateia
durante espetáculo no Teatro Marília.
As crianças, em choque, foram retiradas do local.

Eu vi Magali mijando atrás de uma pilastra
no Parque da Mônica. Por fim, sacudiu o pau,
colocou novamente a máscara e voltou ao trabalho.

Eu vi Beto Carrero e o cavalo Faísca derraparem
na fina camada de areia e saírem pela tangente
naquela tarde no Ginásio do Mineirinho.

Por muitos anos tentei me convencer
de que tudo isso não passou de invenção.
Ainda tenho minhas dúvidas.


OFICINA DE POESIA


Trabalhe em dois livros, simultaneamente.
Dedique a maior parte do seu tempo ao livro 1.
É nele que você colocará os melhores poemas.
No livro 2, escreva o que vier à cabeça,
sem muitas preocupações temáticas ou estilísticas.
Ele vai funcionar como um caderno de exercícios
e provavelmente nunca será lido.
Enquanto isso, continue trabalhando com afinco
nos poemas do livro 1.
Ao final do processo,
jogue fora os poemas do livro 1
e publique o livro 2.



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